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13 de jul. de 2013
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Paulo Borges entrevista o estilista Samuel Cirnansck

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UseFashion
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13 de jul. de 2013

O desfile da coleção de verão 2014 do estilista Samuel Cirnansck marcou a abertura da 3ª edição do Moinhos Preview, que ocorreu na noite da última quarta-feira, dia 10, em Porto Alegre. A cada ano, o evento traz um grande nome da moda nacional para debater sobre o cenário fashion do país. Logo após o desfile, que apresentou ainda três vestidos de noiva inéditos escolhidos especialmente para o Moinhos Preview, um bate-papo entre o estilista e o empresário Paulo Borges, sobre mercado e, principalmente, sobre a carreira de Samuel. O criador do SPFW comandou a conversa através de perguntas e respostas.


No inicio do bate-papo, os dois lembraram do começo da carreira do estilista, que começou profissionalmente em 2001, ao lado de nomes importantes da moda como Valério Araújo, Priscila Dalrot e Wilson Ranieri, no Movimento HotSpot, organizado por Paulo Borges.

Paulo Borges: O que te levou para o universo da moda?
Samuel Cirnansck: Acho que o que me levou inicialmente foi a ousadia, o encanto, a beleza e o glamour da moda. A questão de poder se exibir, no bom sentido.

PB: Teu trabalho se destaca por uma simbiose entre escultura e design, muito além de criação, pois mexe com as formas e o volume do corpo da mulher. Antes do início da carreira em 2001, qual foi seu primeiro contato com a matéria-prima e o corpo?
SC: Desde muito pequeno, aos cinco anos de idade, eu pinto telas a óleo, então minha formação como artista plástico colaborou para fazer este tipo de trabalho. A transformação da pintura a óleo para o 3D foi com o tempo, quando eu pude trabalhar com tecidos sobre bustos, e o Movimento HotSpot permitiu este tipo de experimentação, principalmente pela liberdade de criação que eu tinha ali. Foi aí que descobri que o tecido que mandava em mim, que era mais uma ferramenta para trabalhar texturas. Hoje, vejo minha obra como uma mistura de pintura e escultura, pois começo sempre a roupa por baixo, a partir do forro, até chegar aos bordados.

PB: Quanto tempo, em média, demora uma peça elaborada para ser produzida?
SC: Com o cuidado e dedicação que merece, de quatro a cinco meses, no mínimo, até a peça ficar pronta. Às vezes eu quero um bordado que nem sei exatamente como é, então faço e refaço várias vezes. É uma experiência a cada peça de roupa.

PB: Você produz alta-moda, faz peças únicas. Mas como funciona o teu prêt-à-porter? 
SC: Depois de 12 anos eu ainda não descobri uma fórmula para desenvolver o prêt-à-porter. Mas ele acontece quando a roupa já está consumada, sempre com uma peça mais simples. Embora uma peça simples demore de um a dois meses para ficar pronta.

PB: Hoje, você é conhecido nacional e internacionalmente pelo teu trabalho, pelo DNA forte, e claro que tens. Uma peça do Samuel é facilmente identificável. Depois de quanto tempo nesses anos todos você acha que chegou a esse tom?
SC: Apareceu nos desfiles das noivas amarradas, verão 2011/12, pouco tempo atrás. Os anos anteriores foram de aprendizado, e era na passarela que eu queria mostrar mesmo o caráter experimental das minhas criações. Esse outro lado eu deixava apenas dentro do ateliê, onde são produzidas as roupas sob medida. Depois de algum tempo, eu me senti maduro para transportar isso para a passarela, mostrando uma mulher mais real.

PB: A moda tem passado por muitas mudanças e transformações. A tecnologia tem mudado a forma de viver e vem criando novos hábitos. Como é hoje para você, que vive de moda, num momento em que se fala pouco de criação e muito de resultados? 
SC: O que faço é muito antigo, minha roupa tem as construções semelhantes a uma peça de 400 anos atrás. Com moulage e costura à mão, isso faz parte da minha criação, da minha identidade e, talvez, nesses tempos de alta tecnologia, isso seja um resgate e um diferencial. As pessoas veem como algo tão antigo e do passado, que se torna moderno e inovador.

PB: A indústria do casamento definitivamente voltou a ser algo importante na vida das pessoas. Como você, que trabalha muito nesse segmento, vê a relação da moda e o casamento?
SC: Durante os anos 1990, o contexto do Brasil era diferente e os jovens tinham menos poder aquisitivo. Agora é diferente, a ascensão do poder aquisitivo no Brasil colabora para que a juventude se case cada vez mais cedo. Hoje, grande parte dos casamentos é entre pessoas de 22 e 23 anos de idade. Na minha época, havia certo desconforto sobre a ideia de constituir família, como se fosse uma coisa careta. Hoje, parece ser esse o desejo dos jovens.

PB: Será que é uma volta de atenção a sentidos emocionais que acaba refletindo na moda?
SC: Acredito que sim. Quando entrei no mercado eram poucos os estilistas que desfilavam noiva. Quando comecei a colocar as noivas na passarela houve muito o questionamento se isso era moda. Mas, para mim, é a moda das noivas e de festas. Eu vi crescer esse mercado, não só o da moda, mas de profissionais especializados neste tipo de festa. E o meu amadurecimento foi com o tempo também, conhecendo essas noivas e identificando seus desejos.

A conversa encerrou-se com Samuel comentando um de seus desfiles mais polêmicos e também mais comentados, que estampou a capa de diversos jornais internacionais, no qual noivas foram amarradas e amordaçadas num contraponto entre pureza e sadomasoquismo.

Samuel Cirnansck – Verão 2011/12


Para o estilista, as mulheres são quem comandam o mundo, e no casamento não é diferente. “A mulher manda que o marido a amarre, manda que ele a amordace”, disse ele. Samuel conta que as mordaças eram de diamantes e as cordas de fios de seda, numa brincadeira irônica de como quem diz “você me prende, mas como que eu quero”.  “Foi muito mais um elogio e uma homenagem às mulheres, lembrando-as de que são fundamentais para a sociedade e que as coisas funcionam sempre da maneira delas”, finalizou.

Depois da conversa, os presentes foram convidados a participar da abertura da exposição ffwMAG! Fashion Tour com Samuel Cirnansck, que traz um resumo da carreira e da trajetória do estilista através da seleção de 12 de suas principais criações.


A exposição fica aberta ao público até o dia 20 de julho na praça de eventos do Moinhos Shopping, em Porto Alegre. A Curadoria do Moinhos Preview é das jornalistas e consultoras de moda Patrícia Parenza e Patrícia Pontalti.
 
Fotos: UseFashion e Vicky Furtado/Divulgação Moinhos Shopping

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