×
Por
Terra
Publicado em
27 de jan. de 2010
Tempo de leitura
4 Minutos
Compartilhar
Baixar
Fazer download do artigo
Imprimir
Clique aqui para imprimir
Tamanho do texto
aA+ aA-

Gustavo Lins: único brasileiro na alta-costura de Paris

Por
Terra
Publicado em
27 de jan. de 2010

O único brasileiro a integrar a Semana de Moda de Alta Costura de Paris, o mineiro Gustavo Lins mistura quimonos, base de seu trabalho de criação de roupas, com camisetas de futebol na coleção verão 2010 que apresentou nesta terça-feira (26), durante a temporada de desfiles. Trabalhou com couro e papel costurado, além de tecidos que dão movimento e aplicação de cerâmica.

Gustavo Lins
Última coleção de Gustavo Lins outono/ inverno 2009/ 2010


Apesar da referência constante aos quimonos, Lins apresentou desfiles inspirados em Lampião e Maria Bonita e em índios brasileiros nas seis apresentações que já realizou na capital parisiense. Gustavo criou sua grife no dia 1º de abril de 2003. Antes disso, trabalhou para Kenzo, desenhando para as linhas masculina e feminina, como estilista do segmento masculino para Louis Vuitton, John Galliano, Jean-Paul Gaultier, Jean-Charles de Castelbajac e Agnès B. Hoje, Lins também mantém criações para o público masculino, apesar de desfilar as coleções femininas.

Natural de Belo Horizonte, formado em arquitetura pela Universidade Federal de Minas Gerais e com doutorado sobre Gaudi feito na Universidade da Catalunha, na Espanha, Gustavo é um autodidata na moda. Mas desde o ano passado concilia suas criações feitas no ateliê no bairro de Marais com a vida acadêmica. É professor de
design do vestuário na Escola Nacional Superior de Artes Décoratifs, de Paris.

E da capital francesa ele conversou com o Terra por e-mail, antes do desfile, sobre a nova coleção, o segmento alta-costura e sobre a nova atitude do segmento de moda em geral, segundo ele "muitíssimo mais exigente, quanto aos preços, qualidade dos produtos". A temporada de desfiles de alta costura começou neste domingo com desfile de Josephus Thimister e vai até o dia 28, com exposições de marcas de alta joalheria, que pela primeira vez integram o calendário da temporada.

Terra - Quais os principais destaques da coleção verão que apresentou nesta temporada de alta costura?
Gustavo Lins - O principal tema é a associação entre os quimonos japoneses retransformados e camisetas de futebol transformadas em vestidos. Eu as abri e inseri painéis de musselina satinada negra, dando muito movimento. Fiz quimonos trabalhados com couro e papel costurado com tiras de couro e tinta nanquim, negra, vermelha, laranja ou verde Brasil. Há também vestidos muito fluidos em musselina de seda, vestidos smoking em lã fria negra, com tiras de couro pespontado, casacos de couro vermelho profundo, saia "crayon taillé" (tipo lápis, reta na altura do joelho) em lã fria riscada, calças bombachas com botas curtas etc.

O que tem lhe interessado no momento?
O que me interessa muito é o trabalho que faço com porcelana. Apresento 12 peças drapeadas em porcelana durante a semana de alta-costura. Também acompanho muito o cinema e gostei muito do ultimo filme da diretora neozelandesa Jane Campion, Bright Star, sobre a vida do poeta John Keats.

A crise pela qual a marca do estilista francês Christian Lacroix, na sua opinião, afetou em algo o segmento? A alta-costura francesa perdeu uma grande marca nessa estação. Christian Lacroix é um emblema da costura parisiense e a sua ausência é um marco nessa história.

O mercado tem se mostrado mais otimista e espera melhores resultados econômicos em 2010 e 2011. Você está otimista? O que espera para esse ano?
O que percebo é um mercado mais aberto, mas muitíssimo mais exigente, quanto aos preços, qualidade dos produtos. Os clientes exigem uma criação aprofundada para que os preços sejam justificados. Há também a questão da procedência dos produtos, se são feitos na Europa, na India ou na China. Quando os valores são muito elevados em um item made in India ou made in China a questão da ética do produto é imediatamente colocada.

Os consumidores rejeitam esses produtos?
Não diria que os consumidores rejeitem os produtos feitos nessas áreas. Mas quando os produtos são feitos com uma mão-de-obra muito mais barata do que a europeia e têm preços quase equivalentes, os clientes se questionam quanto ao valor agregado dos produtos. Não é uma questão moral ou de julgamento de valores, é simplesmente uma questão de mercado.

Que projetos têm desenvolvido paralelamente a sua maison?
Vou desenvolver um projeto com a Manufactura de Sèvres, criarei um vestido em porcelana, depois da experiência que tive com a fábrica alemã Porzellan Manufaktur Nymphenburg (empresa que desenvolvia as peças de porcelana que usava em suas criações). E sou professor de design de vêtement (design do vestuário) na Escola Nacional Superior de Artes Décoratifs de Paris, desde fevereiro de 2009. A
experiência acadêmica é muito interessante para mim, pois sou autodidata em moda depois de me formar em arquitetura. Estou construindo com essa escola um programa de moda coerente com uma formação de arquiteto. E isso me realiza muito.

Michelle Achkar

Copyright © 2021 Terra. Todos os direitos reservados.