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Publicado em
3 de fev. de 2011
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SPFW: balanço 6º e último dia

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UseFashion
Publicado em
3 de fev. de 2011

Perfeccionismo na Gloria Coelho, alfaiataria e religião no João Pimenta, virilidade e catástrofes ambientais no Herchcovitch, fragilidade e poética na Fernanda Yamamoto, excessos descarados no André Lima. Para engrossar a lista, chuva artificial, streetwear e patriotismo no encerramento desta 15ª edição da SPFW, devidamente regido pela Cavalera.

Gloria Coelho


Inspirada pela visualidade de Pokemons e de marajás praticantes de motocross, com shapes dos anos 1960, Glória Coelho apresentou sua coleção. Peças salpicadas de cores fortes, alinhadas com uma vertente da moda minimalista global que aquece a cartela enquanto preserva as formas secas. Neste jogo de esquenta e esfria, ela trabalha com flutuantes babados localizados e palas e golas em camadas sobre modelagem geométrica e curta. Como sempre, uma apresentação impecável.


 




João Pimenta


Vale comentar a coleção do João Pimenta, antes que a objetividade comercial esfrie o entusiasmo. É difícil não enfileirar adjetivos. De início pela irretocável qualidade técnica. Os tecidos são excelentes e usados nos lugares certos. Toda a coleção, no que diz respeito à execução, é de uma propriedade rara. Cortes limpos, caimento exato e um senso de luxo austero e equilibrado, que abre caminho para o anunciado exercício formal sobre a forma trapézio. Na verdade, a coleção embute alegorias, ecoando roupa eclesiástica, que transforma os rapazes em freiras, padres e bispos. Uma enorme coragem esta, de colocar em cena visão radical das possibilidades da roupa masculina, sem vacilar em nenhum ponto da tarefa arriscada.

 


 




Alexandre Herchcovitch


É uma raridade soar absolutamente contemporâneo na moda masculina sem precisar se aproximar da feminina. Embaralhar gêneros é recurso corrente e importante na moda e na cultura global. Mas Alexandre minimiza isso para assumir densidade de condições de sobrevivência, pós catástrofes ambientais, e encher a passarela de virilidade e drama. Máscaras, óculos escuros, tecidos de proteção e coturnos pesados sustentam a alfaiataria inventiva, com calças soltas no corpo e muito preto, em apresentação de grande impacto.


 




Fernanda Yamamoto


A delicadeza e inventividade têxtil que sustentam o estilo da Fernanda Yamamoto também fragilizam o resultado desta coleção. Parece contraditório, mas a minúcia dos embates sutis entre as matérias-primas e as formas da modelagem derivadas do círculo, embora sejam qualidades, debilitam o resultado. A estilista perseguiu esta fragilidade, e não é à toa que é em alguns vestidos, pendendo leves e esgarçados a partir dos ombros, que a coleção atinge seus melhores momentos. Não seria correto dizer que ela deveria ir noutra direção, o trabalho dela é sensível e particular. O que é preciso fazer para que ele junte de forma mais convincente poética e objetividade, só ela pode saber.


 




André Lima


Para apreciar André Lima, deixe de fora do assunto qualquer ideia de destinação comercial e outras objetividades. Elas serão inúteis neste caso. Só mesmo se jogando nos excessos para se deliciar com o enciclopédico domínio técnico de costura que ele exibe sem nenhum comedimento. André tem habilidade necessária para tornar convincente este universo de drapeados enormes, arrematados por laços colossais e executados em tecidos luxuosos. Soaria anacrônico, se ele não fizesse isso com evidente prazer e senso de humor. Trata-se de um apaixonado pela costura de todos os tempos, que opera em estado de deslumbramento por divas assombrosas de outras eras.


 

 




Cavalera


O público, que durante dias foi impactado pela monumental passarela de madeira que dava acesso à Bienal, viu-se dentro deste cenário na hora de assistir ao desfile da Cavalera, o último desta edição de 15 anos da SPFW. Com modelos caminhando nos espelhos d água e sob chuva artificial, a marca mais uma vez passou colada ao espírito paulistano. No material de divulgação, referindo-se ao atual trabalho, liam-se frases como “proclama o contato humano, celebra o coletivo”, e “protesta contra o solitário espetáculo do mundo da fama”. Não estava fácil de ver o stretwear da Cavalera em meio ao espetáculo. De certo, um streetwear com muito preto e cor pontual, aspectos detonados e boas proporções para ele e para ela. Faltou tocar o hino nacional. Mas estavam lá bandeiras do Brasil e da cidade de São Paulo, sedimentando o longo e bem sucedido casamento da Semana de moda paulista com o Calendário Oficial da cidade e do país. Agora, só na próxima estação.


 




Fotos: © Agência Fotosite
Eduardo Motta

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