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Publicado em
1 de fev. de 2011
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SPFW: balanço 2º dia

Por
UseFashion
Publicado em
1 de fev. de 2011

Divertidíssima, a Neon surrealista, pesando a mão no que ela sabe fazer melhor e trafegando em direção radicalmente oposta à elegância calculada do Reinaldo Lourenço. O 2º dia ainda teve mais: clima de sala vip no cinema restrito da Ellus, tricô miraculoso da Gehtz, o caos técnico-visual da Amapô e o requiem bonito e sombrio do Alexandre ecoando catástrofes ambientais. O dia impõe-se pela diferença em várias instâncias, tanto que nem ao menos os desfiles estão em ordem nessa abertura. Vamos a eles, daqui por diante organizados na sequência dos fatos.

Reinaldo Lourenço



Reinaldo deu a largada do dia em grande estilo. Desdobramentos de alfaiataria, com sabor  de moda clássica, sofisticada aplicação de pérolas e outros bordados, em coleção coordenada pela precisão técnica, bem próxima da alta costura. O trabalho é reconhecidamente maduro, não corteja abertamente modernidades, optando pelo luxo atemporal, e é tão discreto no requinte da execução que exige um olhar atento ao detalhe para saborear a coisa por inteiro. Comprimentos longos, finas tiras de couro sobre transparência e pérolas transformadas em poás compondo minicoleções irretocáveis.


 





Ghetz


Estreante nas passarelas do São Paulo Fashion Week, a empresa do interior de São Paulo viabilizou parceria entre Giovanni Bianco e o mago do tricô Lucas Nascimento. A coleção, inspirada na obra do artista canadense Bruce Ingram, é um milagre técnico, com meticuloso trabalho de modelagem e belos desenhos construídos na tecelagem. Muito bonita, é mais uma prova de que, no momento, o tricô é o céu e é o limite.


 





Ellus


A marca adotou aquele climão de sala vip e fez apresentação em projeção 3D. O recurso eliminou a presença dos fotógrafos, acentuando o mal estar disparado pela baixo nível de receptividade da sala escura e restrita. Bem, nada disso é roupa e como é roupa o que importa, vale dizer que o direcionamento rumo ao jeans de luxe flui em clima futurista e shapes espertos e maliciosos, algo assim como revisões que os anos 1990 fariam dos anos 1960. Jeans que brilham no escuro, metais e geometrização das formas estão entre as atrações da Ellus, apresentadas (no filme) só por Aline Weber e um modelo masculino. A pipoca cordial distribuída aos convidados ganhou reforço extra de simpatia e profissionalismo quando, ao final, todos tiveram acesso à coleção no camarim.


 




Neon


Mesmo sem as grandes estampas corridas e caftans, nunca vi a Neon tão Neon. Discordo quando se diz que, neste desfile, a marca se afastou dela mesma. Ao mergulhar em imagens surreais, aprofundou sua maior qualidade, que nem sempre tem a ver com a roupa, mas com a liberdade que a dupla de criadores presta reverência à uma série de clichês da moda (divas da passarela, volteios, olhares, tecidos esvoaçantes, escadarias triunfantes, climão) enquanto se diverte com ela. Neon é uma marca engraçada, no melhor sentido do termo, e que nunca se intimidou em fazer caricaturas. O surrealismo de Elza Schiaparelli, Dali e Magrite, ecoando em trompe l´oeils e objetos de cena, só deu potência a esta veia. E olha que tem superfícies ricamente trabalhadas nos vestidinhos secos, calças boca de sino vertiginosas e acessórios hilários, coisas que validam o mix.


 




Amapô


Ops. Não é tarefa fácil juntar os cacos da Amapô. A marca levou ainda mais longe o estilhaçamento da modelagem, em puzzle de referências e mixagem de tudo um pouco. Não bastasse a colagem alucinada em cada look isolado, a coisa se multiplica com efeito coleidoscópico no conjunto. Os cortes masculinos são bons nas proporções, o feminino é repleto de boas ideias, acumuladas umas sobre as outras como em uma “floresta infernal”, imagem citada na divulgação da marca. Desconstrução da alfaiataria e mix de estampas e texturas conduzem a coleção-caos da Amapô. É pegar ou largar.


 




Alexandre Herchcovitch


Houve um tempo em que Woody Allen fazia filmes que eram a cara dos filmes do Bergman. O humor torto e veloz era então trocado pela subjetividade atormentada do diretor sueco. A analogia com Alexandre Herchcovitch é para registrar as recentes aproximações do estilista com climas ora otimistas e positivos, ora reflexivos e densos, e não para assinalar possíveis oscilações de identidade. O que se viu ontem era puro Alexandre, estilista que nem precisa ser literal para condicionar o que escolhe às próprias prerrogativas. Nesta coleção de alinhamento global, com comprimentos longos e rendas da hora, a leveza colorida e pictórica da coleção passada cede lugar a uma cartela emprestada de lavas vulcânicas, ecoando as forças da natureza e, de tabela, as catástrofes ambientais. Bonito, sofisticado e contemporâneo, e de um jeito cortante, ele fechou o vai e vem do 2º dia.


 

 




Fotos: © Agência Fotosite
Eduardo Motta

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