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Traduzido por
Novello Dariella
Publicado em
25 de abr. de 2022
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Roberto Funari (Alpargatas): "Temos um enorme potencial de crescimento além das sandálias"

Traduzido por
Novello Dariella
Publicado em
25 de abr. de 2022

Encarregado de liderar a nova era da Alpargatas, Roberto Funari foi nomeado CEO da empresa brasileira de calçados em janeiro de 2019. E depois de pouco mais de um ano, o executivo com 32 anos de experiência em empresas como Imperial Brands ou Reckitt Benckiser teve que lidar com a gestão inesperada da pandemia. Um desafio que a Alpargatas liderou com sucesso, tendo recentemente investido na marca Rothy's. Durante a primeira viagem de Funari à Europa após a Covid-19, o site FashionNetwork.com conversou com ele sobre suas estratégias de negócios, os desafios futuros e o potencial de crescimento de seu negócio, cujo principal mercado continua sendo o Brasil, graças ao desempenho de Havaianas, seguido pelos Estados Unidos, com a sua entrada na capital da Rothy's, Itália, Reino Unido, França e Espanha.


Roberto Funari, CEO da Alpargatas - Alpargatas


FashionNetwork.com: Como as tensões internacionais, a crise na cadeia de suprimentos e a inflação global podem afetar a Alpargatas?

Roberto Funari: É a onda perfeita. Existem muitos elementos externos que afetam os negócios e as empresas que tiveram sucesso até agora são aquelas que conseguiram minimizar o impacto em seus negócios. Ainda há riscos e restrições devido ao Covid-19, o que gera complicações logísticas, mas no caso de Rothy's e Havaianas, essas questões são relativamente controláveis porque temos uma cadeia de suprimentos verticalmente integrada e conseguimos gerenciar o desafio logístico, assim como nos adaptar às consequências do Covid-19 em diferentes partes do mundo.

O maior impacto tem sido a inflação sobre os custos da indústria, bem como seu efeito sobre os preços para o consumidor. Nos últimos 3 anos, a empresa estabeleceu um plano de "gestão do crescimento da receita", no qual usamos a análise de dados para estabelecer o preço, o consumidor e o ponto de venda que devemos ter. Isso nos permite ajustar o preço sem perder volume. Também trabalhamos muito em nosso posicionamento de preços para poder atingir todos os tipos de bolsos e consumidores, somado à capacidade de aumentar os preços em novas coleções. No Brasil, a inflação está muito alta, acima de 11%, enquanto na Europa estamos falando de 4-6%, então tivemos que trabalhar no aumento dos preços enquanto ampliamos nossa oferta.

FNW: Qual o balanço desde a sua nomeação à frente da Alpargatas no início de 2019, substituindo o histórico CEO da empresa, Márcio Luiz Simões Utsch?

Roberto Funari: A Alpargatas iniciou uma nova etapa em 2019 e, desde então, nossa estratégia se baseou em 3 eixos. O primeiro foi focar na expansão global e no portfólio de Havaianas, que já está presente em mais de 130 mercados e está muito bem posicionada. Somos líderes em chinelos, embora tenhamos apenas 3% do mercado. Por isso, acreditamos que temos um enorme potencial de crescimento, principalmente como acessórios de moda. Queremos ir além das sandálias e estamos abertos a outras categorias de calçado.

Nosso segundo movimento foi desinvestir em todas as marcas e negócios que não estivessem diretamente ligados a essa visão. Assim, vendemos nossas marcas de roupas esportivas, nossos negócios têxteis na Argentina e nossas ações na marca Osklen. E no final do ano passado investimos na aquisição de 49,9% da marca nativa digital Rothy's, que tem sede em São Francisco e utiliza uma tecnologia exclusiva para fabricar produtos a partir de garrafas recicladas. Também investimos na capacidade da empresa e, em maio do ano passado, compramos uma empresa de transformação digital com 250 especialistas em dados e desenvolvimento de software, agora nossa empresa tem 450 funcionários dedicados à tecnologia no Brasil.


Havaianas


FNW: Sua chegada ocorreu pouco antes da pandemia, onde está a Havaianas após o impacto desse período?

R.F: Nos últimos 3 anos, a Havaianas tem registrado um crescimento global de 50%. Durante a Covid-19, tornou-se uma marca também para ficar em casa, associada a memórias positivas de verão e férias. Fechamos o último exercício 30% acima dos dados registrados em 2019 (em 2021, a empresa registrou um faturamento de 3.913 milhões de reais, cerca de 656 milhões de euros, ndr), então a pandemia nos ajudou a acelerar nosso crescimento. Os negócios internacionais representavam 27% do total e agora representam 32%. Pela primeira vez, batemos o recorde de vendas de 31 milhões de pares fora do Brasil. A transformação digital tem como objetivo impulsionar nossas vendas online, um canal que já representa 14% das receitas e que esperamos que cresça graças à aquisição da Rothy's, cujo negócio é principalmente digital.

Desde a Covid-19, triplicamos as vendas de todos os produtos, exceto sandálias, por isso estamos diante de uma expansão significativa de nossa oferta. E no quesito sustentabilidade, investimos notadamente na circularidade e na implementação do nosso programa de coleta e reciclagem em cerca de 300 lojas, que chegará pela primeira vez à Europa neste verão. Também planejamos lançar os primeiros produtos feitos a partir da reciclagem de Havaianas.

FNW: Como foi a gestão da crise no Brasil, país que reagiu à crise sanitária de forma diferente dos mercados europeus?

R.F: Estamos integrados verticalmente. No Brasil temos 5 fábricas principais. Durante a Covid-19, as adaptamos às medidas e protocolos de segurança, de modo que obtivemos a autorização para manter a atividade e não interrompemos nossas operações em nenhum momento. Do ponto de vista da oferta, não tivemos problemas, mas obviamente sofremos um impacto com a grande maioria das lojas internacionais fechadas.

FNW: Quais estratégias vocês vão aplicar para o desenvolvimento de Havaianas junto com Rothy's?

R.F: São marcas muito complementares. Do ponto de vista da categoria de produtos, uma é focada em calçados abertos e a outra em calçados fechados. Ambas estão posicionadas na intersecção entre estilo e conforto, algo que poucas marcas no mercado combinam. A Havaianas é acessível, enquanto a Rothy's é um pouco mais cara (preços de US$ 130 a US$ 400) e formal. No momento, é uma marca “direct-to-consumer”, mas planejamos abri-la para B2B com atacadistas nos Estados Unidos. É uma marca que também representa uma oportunidade geográfica, prevemos lançamentos na Europa e no Brasil nos próximos 12 ou 18 meses.

A primeira combinação mais óbvia será através do canal online, com duas interfaces diferentes para os consumidores, mas o backoffice e a logística serão organizados de forma sinérgica. No futuro, a inovação girará em torno das tecnologias exclusivas de ambas as marcas para o desenvolvimento de produtos melhores. A Havaianas é especialista em solados, enquanto a Rothy's se destaca pela tecnologia de knitting e pelo uso de materiais reciclados.

FNW: Como você pretende mudar o posicionamento de preço de uma marca tão conhecida por seu caráter acessível?

R.F: Havaianas é uma marca democrática e queremos manter essa universalidade. No entanto, observamos nos últimos 2 anos que a empresa tem grande potencial em aumentar seu posicionamento de preço. Na Europa, trabalhamos com a faixa de preço de 20 a 40 euros e sabemos que há uma grande oportunidade de passar de 50 a 100 euros. Fizemos colaborações e inovamos em formatos, que nos ajudam a elevar nosso posicionamento. No caso das sandálias, podemos começar a colocar no mercado mais produtos premium, mantendo uma gama acessível. Um exemplo de inovação tem sido o desenvolvimento de produtos com “glitter”, que nos permitiu aumentar os preços para 30-40 euros e queremos seguir trabalhando nesta linha.

No que diz respeito às colaborações, nos últimos 3 anos nos associamos mais a marcas de streetwear mas também mantivemos uma forte conexão com marcas de luxo. Gostamos de brincar com essa combinação de tendências “high” e “low”. Uma de nossas associações mais importantes é a Saint Laurent e estamos desenvolvendo algumas novas.


Havaianas



FNW: Qual é o objetivo dessas colaborações? São ferramentas de marketing ou representam receitas representativas?

R.F: Nós vemos como uma construção de imagem de marca, são essenciais para criar e construir afinidade com novos públicos. Mas também fazemos importantes colaborações com a indústria da cultura e do entretenimento, como nossa associação com a Netflix, a série Naruto ou o jogo Fornite. Consideramos vários tipos de colaboração, como o apoio à comunidade LGBTI+ por meio da coleção permanente “Pride”, lançada em 2020 e que tem 7% da renda doada à comunidade. Tem sido um grande sucesso globalmente. Também criamos parcerias no quesito sustentabilidade e há algumas semanas lançamos uma colaboração com artistas de favelas do Brasil, que se tornou una das mais vendidas. Todas essas alianças são o que fazem da Havaianas uma marca diversificada e atrativa para todos os tipos de clientes.

FNW: Há interesse em futuras aquisições de marcas ou tecnologias?

R.F: Neste momento vamos nos concentrar em nossa expansão internacional, na promoção da Rothy's e no crescimento de Havaianas, principalmente em outras categorias e no meio digital. Mas continuamos abertos a aquisições de soluções e tecnologias digitais para integrar, bem como no campo da sustentabilidade, onde podemos estudar colaborações ou joint ventures.

FNW: Qual é a posição da empresa em relação ao Metaverso?

R.F: O metaverso é a nova economia, um novo mercado que está se abrindo. Nossa intenção é experimentar e aprender com esses primeiros passos, estudando como ele pode se tornar uma nova fonte de renda ou uma forma diferente de se relacionar com nossos consumidores. Temos duas grandes iniciativas no Metaverso: os NFTs de um artista brasileiro e nossas ilhas dentro do jogo Fornite, que fazem bastante sucesso. Planejamos lançar outras inovações no futuro.

FNW: Como será o varejo do futuro e como a Alpargatas está se preparando para ele?

R.F: Acredito que o varejo vai se reinventar completamente. Não haverá mais essas linhas nítidas entre o físico e o digital, mas as noções serão integradas. A forma como olhamos para o varejo agora está atrelada a serviços, experiências e ao desafio de encontrar novas maneiras de se conectar mais de perto com os consumidores e criar afinidade. O espaço do varejo e a interação física são um veículo fundamental para isso. Por outro lado, também deve ser entendido como fonte de serviços e não apenas como suporte para a estratégia omnichannel, propondo iniciativas como personalização, customização ou programas de reciclagem. Também estamos investindo em soluções digitais para melhorar os dados dos clientes e estamos inovando por meio de formatos como lojas pop-up. Em breve apresentaremos um novo conceito original em Paris.

O mais importante é estar onde seu cliente está e com uma proposta sólida. Continuaremos investindo nessa estratégia que tem funcionado tão bem para nós, mas aplicando uma segmentação adequada de clientes para maximizar as vendas. No final, as empresas que crescerão mais rapidamente serão aquelas que conhecem melhor seus clientes.

FNW: Além da digitalização e da sustentabilidade, qual é o maior desafio da empresa para o futuro?

R.F: Um dos desafios fundamentais é a captação de talentos e como transformar a empresa em um lugar onde as pessoas querem trabalhar, reter funcionários, atrair talentos tanto na área tecnológica quanto nos departamentos de TI, varejo, criatividade ou manufatura. É um desafio que deve ser aliado a uma constante formação e apoio na transformação dos trabalhadores.

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