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AFP-Relaxnews
Traduzido por
Novello Dariella
Publicado em
26 de mai. de 2021
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O futuro verde da moda: dos casacos de algas marinhas aos sapatos de cogumelo

Por
AFP-Relaxnews
Traduzido por
Novello Dariella
Publicado em
26 de mai. de 2021

De vestidos feitos de lantejoulas de algas, às roupas tingidas com bactérias e à inserção de pigmentos rastreáveis ​​em algodão, uma onda emergente de inovações oferece à indústria da moda a chance de limpar seu lamentável rastro ambiental.


AFP


A mudança é urgente e necessária, uma vez que a indústria consome 93 bilhões de metros cúbicos de água por ano, despeja 500.000 toneladas de microfibras plásticas no oceano e é responsável por 10% das emissões globais de carbono, segundo a Ellen MacArthur Foundation.

As crescentes demandas por mudanças geraram respostas engenhosas, como a capa de chuva de algas marinhas criada pela designer de Nova York, Charlotte McCurdy. O plástico de algas cintilante que ela inventou (sem carbono) em um laboratório impressionou ainda mais quando se juntou ao estilista Phillip Lim para criar um vestido de lantejoulas.

É improvável que apareçam em lojas de departamentos, ela os enxerga mais como uma forma de demonstrar que roupas feitas sem carbono são possíveis. “Não estou tentando monetizar isso. Só quero plantar uma semente”, disse ela à AFP. “O desenvolvimento de materiais é muito lento e é tão difícil competir com aplicativos de celular por financiamento. Francamente, levo as mudanças climáticas à sério e não tenho tempo”, disse McCurdy, cujo foco agora é formar um centro de inovação e divulgação.


Cores bacterianas

Outros, como as designers holandeses Laura Luchtman e Ilfa Siebenhaar, do Living Color, estão encontrando maneiras de reduzir os produtos químicos tóxicos e o consumo intensivo de água para tingir roupas. Elas encontraram um aliado improvável nas bactérias. Certos microrganismos liberam pigmentos naturais à medida que se multiplicam e, ao implantá-los em tecidos, tingem roupas em cores e padrões marcantes.

A pesquisa foi publicada gratuitamente online e a dupla não tem interesse na produção em massa. Luchtman, que já trabalhou com fast-fashion, viu "de perto o impacto negativo dessa indústria em termos de exploração de pessoas e problemas ecológicos" e está determinada a manter a pequena escala.

Outros, no entanto, esperam que essas ideias possam se infiltrar em grandes negócios. A startup californiana Bolt Threads recentemente se juntou a Adidas, Lululemon, Kering e Stella McCartney para construir instalações de produção para o Mylo, um couro feito de raízes de cogumelo. McCartney exibiu sua primeira coleção com Mylo em março, e a Adidas prometeu um tênis com Mylo até o final do ano.


Imperativo de negócios

Alguns especialistas duvidam que tais iniciativas possam levar a uma transformação em grande escala. "Talvez algumas dessas novidades consigam se firmar na indústria, mas a barreira é muito alta para novas abordagens", avisa Mark Sumner, especialista em sustentabilidade da Escola de Design da Universidade de Leeds.

"É uma indústria incrivelmente diversificada, com milhares de fábricas e operadores, todos fazendo coisas diferentes. Não é como a indústria automobilística, onde você só precisa convencer seis ou sete grandes empresas a tentar algo novo."

Sumner vê o maior impacto vindo da melhoria em vez da substituição dos sistemas existentes e diz que a pressão de consumidores e ONGs mostra que isso já está acontecendo. "Entre marcas e varejistas responsáveis, isso realmente deixou de ser uma moda passageira. Eles agora estão considerando a sustentabilidade como um imperativo de negócios", disse ele à AFP.

Não que haja respostas certas ou erradas. A força do movimento de sustentabilidade vem de muitos players que seguem na mesma direção. "Muitas estratégias diferentes precisam funcionar juntas", diz Celine Semaan, fundadora da Slow Factory Foundation, que apoia várias iniciativas de justiça social e ambiental em torno da moda, incluindo o vestido de algas e lantejoulas de McCurdy. “A tecnologia não resolverá os problemas por si só. É necessário política, cultura e ética”, diz Semaan.


Rastreabilidade do algodão

Uma questão que muitos vêem como uma prioridade, no entanto, é a transparência, e aqui a tecnologia tem um papel claro a desempenhar. É o caso da complexidade das cadeias produtivas. "Muitas empresas não têm ideia de onde suas roupas são feitas, de onde vêm os tecidos, quem fornece suas matérias-primas", diz Delphine Williot, coordenadora de políticas do Fashion Revolution.

O  recente alvoroço devido aos relatos de que o algodão da região chinesa de Xinjiang era colhido por meio de trabalhos forçados foi agravado pela dificuldade em saber onde esse algodão foi parar. Pequim nega as acusações.

A Fibretrace, que ganhou um prêmio de sustentabilidade da revista Drapers este ano, oferece uma possível solução: ela insere um pigmento bioluminescente indestrutível nos fios. Qualquer vestimenta resultante pode ser digitalizada como um código de barras para rastrear a sua origem. "Você não pode encontrar o impacto ambiental a não ser que saiba onde o item foi feito", comentou Andrew Olah, diretor de vendas da Fibretrace, à AFP.

Combinado com sites de dados como SourceMap e Open Apparel Registry, que fornecem às empresas uma clareza sem precedentes em suas cadeias de suprimentos, é cada vez mais difícil alegar ignorância. "Quando você não compartilha sua cadeia produtiva, ou faz isso porque está escondendo algo ou porque é estúpido", diz Olah. "Há muito trabalho a ser feito, mas estou muito otimista.”

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