Natacha Ramsay-Levi (Chloé): "Não estamos num momento subtil ou de poesia"

Diretora criativa do prêt-à-porter, artigos de couro e acessórios da Chloé (grupo Richemont) desde abril de 2017, Natacha Ramsay-Levi (39 anos) foi a grande estrela do 34º Festival Internacional de Moda e Fotografia de Hyères, no qual presidiu o júri do concurso de moda. Evento que permitiu à FashionNetwork.com conversar com a designer e falar sobre criação, é claro, mas também sobre a evolução do trabalho de designer, o mercado de luxo nos dias de hoje e sobre os seus projetos na Chloé.


Natacha Ramsay-Levi - © Emile Kirsch / JPPM

FashionNetwork.com: Depois do Studio Berçot, trabalhou 15 anos com Nicolas Ghesquière, de quem foi braço direito na Balenciaga e depois na Louis Vuitton. Como enfrentou este novo capítulo na Chloé ?
 
Natacha Ramsay-Levi: Quando fiz a minha primeira coleção, eu queria fazer uma espécie de carta de amor a todas as coisas que adoro na Chloé. Assim, havia uma série de pequenos capítulos: vestidos pictóricos, que faziam referência ao trabalho de Karl Lagerfeld, o bordado inglês em referência a Phoebe Philo e assim por diante. Tudo o que identifiquei como sendo puramente Chloé. Esta coleção foi para mim o índice, depois fui capaz de abordar o capítulo 1, o capítulo 2... Foram quatro coleções nos últimos dois anos, oito contando as pré-coleções.
 
FNW: A partir daí, mudou a mulher Chloé, conferiu-lhe o seu toque pessoal?
 
NRL: Sim, porque acho que só podemos fazer este trabalho com sinceridade. Mas, não foi uma questão de revolucionar a Chloé. Foi sim de a fazer evoluir. Apenas posso fazer isso com o que penso e com o que sou.

FNW: O que trouxe de diferente à mulher Chloé?
 
NRL: A estrutura, o tailleur com o regresso à alfaiataria, e talvez uma força um pouco mais declarada. É principalmente isso que me têm dito. Incuti uma estética simultaneamente sofisticada e indiferente, é um equilíbrio entre uma mulher suave e forte, porque não acho que se possa ser apenas suave. Precisamos dos dois aspetos.

FNW: Desenvolveu o tema da feminilidade através das joias, dos estampados, de detalhes. Porquê?
 
NRL: Começou com uma pequena figura das Cíclades, que data do quarto milénio antes de Cristo, um tronco com coxas. Faço isso desde o início. Como a Chloé é uma marca ultra feminina, gostei da ideia de a mulher também ter sido um totem que adoramos e que, portanto, usamos como uma magia, como um amuleto de sorte. Algumas pessoas usam cruzes, acho interessante usar-se uma mulher. Desenvolvi a ideia em joias, caixas de fósforos. Tornou-se um modelo recorrente. E, então, desenvolvi outras mensagens desse tipo. A feminilidade viaja de temporada para temporada, ora em joalharia, ora estampada, ora num bordado.

FNW: Também fortaleceu a categoria de joias.
 
NRL: Sim, porque as adoro! Considero que na joalharia colocamos muitas emoções e mensagens. Isso permite-me dizer coisas bastante subtis. Mas, são objetos que podem ser facilmente obtidos, porque são bijuteria. São também os primeiros preços.
 
FNW: E desenvolveu outros acessórios?
 
NRL: Gosto de moda como um todo. O calçado também se tornou muito importante. Estas são as duas categorias que explorei mais do que a Clare Waight Keller (NR: anterior diretora criativa da Chloé, atualmente na Givenchy). Mas, também faço muitas carteiras. Também gosto da ideia de ornamento, da pessoa se adornar a si mesma. O calçado é uma atitude, é a força do movimento, a forma como estamos e avançamos. A silhueta começa aí.
 
FNW: O que a inspira mais?
 
NRL: Os filmes são uma ótima fonte de inspiração. Filmamos campanhas publicitárias e fazemos screenshots. Partimos do filme para descrever quem são estas mulheres Chloé, a sua natureza. O cinema trouxe profundidade à personagem. A fotografia poderia ser feita de maneira sofisticada, mas não seria bem Chloé. O cinema dá profundidade à personagem e as roupas são mais estilizadas. Por fim, falamos mais sobre a adequação da mulher e sobre o uso do que sobre a própria roupa.

FNW: Está na Chloé há quatro temporadas, como foram recebidas as suas coleções?
 
NRL: Muito bem. Há uma mudança, porque, inevitavelmente, proponho outro ponto de vista. É necessário que o cliente possa encontrar-se e encontrar os seus códigos. Todos os nossos parceiros estão presentes e até há novos, chegados desde a primeira coleção, como o Dover Street Market.
 
FNW: Quando chegou à Chloé, já tinha bastante experiência. O que mudou ao tornar-se diretora artística?
 
NRL: Isso muda muito. É, antes de mais, uma honra e uma imensa alegria. Mas, existem duas diferenças principais. A primeira é ser capaz de escolher as pessoas com quem trabalho e criar uma comunidade de trabalho. Eu funciono muito em tribos. Há muitas pessoas que adoro e cujo trabalho admiro, que se tornaram amigas ao longo dos anos, com quem agora posso trabalhar. E isso é uma satisfação real ao formar um grupo de trabalho. A segunda é poder falar em meu nome e, portanto, refletir; é toda a parte mental.

FNW: Isso significa dar o seu ponto de vista? É algo importante para si?
 
NRL: Desenhar produtos, isso eu fiz isso toda a minha vida, com Nicolas Ghesquière e para ele na Balenciaga e depois na Louis Vuitton. É uma atividade na qual sou bastante sólida. Por outro lado, nunca tinha feito narração até agora. Não fazia parte da minha cultura. Atualmente, a narração é tão importante quanto o produto. Ter que explicar uma coleção, o porquê de ter seguido uma direção, colocá-la em palavras, pensar nela, dar-lhe sentido, procurar referências literárias, etc. É um ótimo trabalho. Isso conectou-me novamente com as minhas origens e paixões.

FNW: Como viu evoluir a profissão de designer e de diretor artístico?
 
NRL: De maneira geral, a profissão evolui de designer para diretor artístico. O ritmo das coleções, as apostas comerciais mudaram muito, o número de plataformas de comunicação aumentou. Hoje, quando se é DA, é-se menos designer do que há 20 anos , penso eu. Temos mais tempo para nos concentrarmos no produto. Não fazemos moda como fazíamos há 20 anos. Temos mais um papel de maestro.


Natacha Ramsay-Levy durante a master class organizada em Hyères - ph Dominique Muret

FNW: Não sente falta de se focar puramente na criação?
 
NRL: Não, porque é ótimo abranger tudo. Primeiro, porque gosto de todas as categorias de produtos. Sapatos, óculos... Divirto-me a fazer tudo. Se pudéssemos inventar outros acessórios amanhã, fá-lo-ia com alegria. Por isso é fantástico poder criar uma imagem, contar uma história, criar um cenário de desfile, pensar numa música. Acho maravilhoso poder comissionar artistas em diferentes assuntos.

FNW: Como vê o mercado do luxo nos dias de hoje?
 
NRL: Acho que atualmente toda a gente está um pouco perdida sobre o que funciona ou não funciona. É muito claro, na minha opinião, que o que funciona são as coisas muito fortes e com impacto. Não estamos num momento subtil ou de poesia. É num mercado muito forte, dinâmico e brilhante como o atual que a Chloé deve encontrar o seu lugar, porque é uma marca que joga muito com a suavidade, a flexibilidade, a feminilidade e algo de arejado.
 
FNW: Acha que as redes sociais reforçaram essa tendência?
 
NRL: Talvez. As redes sociais acentuaram essa necessidade de visibilidade imediata. Que eu acho bastante interessante. Ao mesmo tempo, de repente, cada marca tem realmente uma identidade própria e todos também têm o seu lugar. Neste momento há muita criatividade.

FNW: Como se encontra o equilíbrio entre a criatividade e as exigências comerciais?
 
NRL: É um equilíbrio que procuramos constantemente! Com momentos dedicados a esta procura e momentos para ouvir apenas o instinto, caso contrário também nos perdemos. Tento programar plannings com dias dedicados à estratégia, ao negócio e dias nos quais fecho as portas, fico com o meu estúdio e trabalhamos. Somos mais ou menos 12.
 
FNW: Está sob muita pressão?
 
NRL: Todos nós estamos. Muita, sim. Não vou esconder isso. Mas, todos também estamos cientes de que é impossível criar com demasiada pressão. Sou uma pessoa bastante aberta, que gosta de trabalhar em equipa Além disso, sou bastante porosa. Por isso, se houver muita pressão, eu digo. É preciso ser forte. Eu sou, porque também conheço os meus limites. Há um momento no qual fecho as portas e é preciso deixar-me trabalhar.

FNW: Quais são os seus próximos projetos para a Chloé?
 
NRL: Vamos apresentar a pré-coleção em Xangai. Eu não lhe chamaria uma coleção cruise porque não somos uma grande maison. Não disponibilizamos meios extraordinários como a Louis Vuitton, a Dior ou a Chanel. Por isso, é apenas uma pré-coleção, feita normalmente como fazemos habitualmente, mas que vamos apresentar na China como um evento nacional, ou seja, um evento realmente dedicado ao público chinês num lugar que escolhi e do qual gosto muito.
 
FNW: Estava destinada a fazer moda?
 
NRL: Quando era adolescente, fazia as minhas próprias roupas. Utilizei a minha forma instintiva de me vestir para me expressar. O impacto de um look é imediato. Num segundo, oferece uma visão da sua personalidade. Acho que a moda sempre esteve presente em mim, mas é algo que não assumi muito bem. Primeiro estudei história africana em Jussieu e adorei. Após uma longa viagem sozinha, três meses no Mali, onde tive tempo para refletir, pareceu-me óbvio: a moda era o que eu devia fazer.

Traduzido por Estela Ataíde

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