Mulheres oprimidas: antes, o espartilho; hoje, a mídia

Entrevistamos a professora doutora Maria Alice Ximenes, autora do livro “O feminino no século 19, moda e arte na reinvenção do corpo”. Nesta conversa, Ximenes antecipa o padrão feminino de beleza para 2020 e descreve as semelhanças entre a mulher oitocentista e a atual, entre outros assuntos. Confira:




UseFashion - Quais foram suas principais fontes de pesquisa para a elaboração do livro?
Maria Alice Ximenes - Sem dúvida História da Arte e História da Moda. Esta pesquisa foi realizada em minha dissertação de mestrado no Instituto de Artes da Unicamp, então se debruçou especialmente nas artes recorrentes do século 19.

UF - De onde vinham as principais inspirações do vestuário da época e de que forma elas se mantêm presentes nas roupas atuais?
MAX - Vinham da França, desde o século 17. Todavia, especialmente na 2ª metade do século 19, com a chegada de Charles Frederic Worth, a alta costura se insere como advento que confere à roupa da burguesia o status de obra de arte, criada e assinada sob suas decisões ditatoriais.

Em minha pesquisa, defendo que o homem foi o principal escultor do redesenho do corpo feminino, possibilitando assim as formas mais eróticas do seu vestuário. Mantêm-se presentes nos dias de hoje apenas pelo papel de ressignificação do corpo e da roupa, nos novos redesenhos, não mais pela cultura da sociedade patriarcal outrora em voga, mas pelos novos parâmetros do século 21.

UF - Por que você direcionou o livro para o vestuário feminino apenas? Os homens da época renderiam uma 2ª obra?

MAX - No século 19, os homens eram discretos, sisudos e sóbrios. Contidos em sua condição provedora e industrial, transferiam para a mulher seu status e poder. Enquanto isso, o corpo feminino passeou por várias formas que cristalizaram construções quase bizarras, como o espartilho, que levou mulheres até a morte.

Minha pesquisa privilegiou em seu recorte tratar do feminino. O homem poderia ter um estudo com certeza, mas num outro século, outro período, e definitivamente não no século 19.

UF - Há alguma semelhança entre a mulher oitocentista e a mulher contemporânea?
MAX - A opressão. Se antes, espartilhos, crinolinas e anquinhas lhe torturavam em territórios doloridos, hoje a mulher contemporânea tem outros elementos cruéis, como a mídia, as revistas, os outdoors que lhe atingem com imagens de mulheres perfeitas.

Ou seja, os meios passam mensagens como “tenha um corpo assim, se sacrifique, não coma, se esculpa em lipoaspirações e cirurgias, etc”, e muitas se sujeitam a dietas absurdas, apenas para se incluírem no padrão e serem aceitas no mundo.

UF - Embasada por suas pesquisas para elaboração do livro, você consegue prever como será o padrão de beleza feminina daqui há 10 anos?

MAX - Haverá uma grande preocupação com bem estar, saúde e qualidade de vida. Mais do que atualmente, o corpo será um templo de respeito, onde não se operará mais as absurdas banalizações que, desde muitos séculos atrás até hoje, martirizam a mulher.

Por Eduardo Pedroso
Fotos: Divulgação

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