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Fendi: um adeus choroso a Karl Lagerfeld

Traduzido por
Estela Ataíde
Publicado em
today 22 de fev de 2019
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access_time 4 Minutos
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Nos despedimos de Karl Lagerfeld na quinta-feira, em Milão, quando a Fendi apresentou a coleção final desenhada pelo criador alemão num desfile choroso e sombrio.


Fendi - outono-inverno 2019 - Milão - Photo : CNMI


O seu grande amigo e DJ de longa data, Michel Gaubert, passou Heroes, de David Bowie, no final, assinalando o fim dos 54 anos na casa de Lagerfeld, que morreu na manhã de terça-feira em Paris, aos 85 anos. Muitas das modelos, com o cabelo penteado para trás e óculos futuristas, estavam visivelmente em lágrimas, assim como vários executivos da LVMH sentados na primeira fila.

Bella e Gigi Hadid usaram os dois últimos looks - dois vestidos de chiffon plissados, usados sobre collants com monograma, uma em cor nude e a outra em tangerina, o primeiro look usado com um boné de jóquei de peles. Depois, Silvia Venturini Fendi agradeceu corajosamente, sorrindo, fazendo caretas, chorando e abanando a cabeça, sob de um painel onde se lia, na caligrafia de Lagerfeld, "Love Karl".

“O vínculo entre Karl Lagerfeld e a Fendi é a mais longa história de amor no mundo da moda, uma história que continuará a tocar as nossas vidas nos próximos anos. Estou profundamente entristecida com a sua morte e profundamente tocada pelo seu constante cuidado e perseverança até ao fim. Quando lhe ligámos, apenas alguns dias antes do desfile, só pensava numa coisa: na riqueza e na beleza da coleção. É um autêntico testemunho do seu caráter. Sentiremos muito a sua falta”, disse Silvia nas suas notas do programa.


Fendi - outono-inverno 2019 - Milão - Photo: CNMI


Enquanto os aplausos desapareciam lentamente, Karl reapareceu num grande ecrã, falando em francês e recordando o seu primeiro look para a casa, em 1965, com as mãos, envoltas nas suas luvas de couro preto, a trabalharem furiosamente com um marcador preto.

“Isto é pré-histórico. Nos anos 60, não nos retraíamos. Eu tinha um chapéu Cerruti, cabelo comprido, óculos escuros, uma gravata estampada Jean Lavallière e um casaco de caça inglês, com painéis. Um casaco Norfolk. Com culottes e botas ao estilo francês e uma carteira que encontrei em Milão. Voilà, é isto. Num tweed escocês e estampados em tons de amarelo e vermelho. Me lembro muito bem. Este era o meu estilo, vergonhoso, em 1965”, disse com um encolher de ombros, enquanto arrancava o belo esboço do seu bloco de notas.

Karl ficou famoso por inventar o logótipo do duplo F invertido da casa, brincando muitas vezes que nunca recebeu direitos de autor pelo branding. Nesta temporada, a marca recuperou a sua versão "Karligraphy" arredondada de 1981, usando-a em collants, camisas de seda com colarinhos pontiagudos, abotoadas até ao cimo, ao estilo inimitável de Lagerfeld. O logótipo apareceu também com grande efeito em botões cabochon e casacos de pele intársia. A espessa passarela bege ostentava igualmente o logótipo em letras de um metro de altura.
 
Foi um excelente desfile de despedida, com alguns belos blusões de couro encerado, blazers masculinos extremamente bem cortados e uma série de notáveis fatos de couro perfurados, vários usados com carteiras Peekaboo perfuradas de forma semelhante. Para as noites frias, uma divina camisa de avô alongada em vison castanho, com uma faixa amarelo narciso. Para as noites especiais, vários vestidos deslumbrantes com ombros em forma de pagode, esculpidos como diamantes.


Silvia Venturini Fendi cumprimenta o público após o desfile - Photo : CNMI


E um toque de humor, que Lagerfeld teria certamente apreciado. A música de abertura foi Small Town, de Lou Reed e John Cale. "Quando cresces numa cidade pequena, percebes que não saiu daqui ninguém famoso", cantou Reed. Lagerfeld foi criado em Bad Darmstadt, uma pequena cidade de cerca de 3.500 pessoas.
 
Antes do desfile, um bando de manifestantes anti-peles ensombrou o ambiente, à medida que os 1.500 convidados entravam no espaço de demonstração da Fendi em Milão. Os seu gritos enraivecidos eram totalmente despropositados num dia de luto. Nunca ninguém lhes ensinou o conceito de respeito pelos mortos?

Quando se considera toda a alegria que Lagerfeld proporcionou com as suas criações requintadas e as suas boas palavras, além dos postos de trabalho que a sua criatividade criou para italianos e trabalhadores da moda em todo o mundo, pareceu tudo particularmente injusto. E uma tentativa fracassada de desviar as atenções das despedidas a um grande artista.
 
Macte virtute sic itur ad astra. Como escreveu sabiamente o grande poeta romano Virgílio: Aqueles que se destacam alcançam as estrelas.

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