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Terra
Publicado em
8 de mar. de 2012
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Desfiles em Paris têm paradoxo entre o real e o surreal

Por
Terra
Publicado em
8 de mar. de 2012

Há sempre uma lição a aprender todos os dias, inclusive no vai-e-vem das semanas de desfiles. Ou algo a ser repensado, como o limite entre a realidade e o irreal. Uma roupa que na passarela parece um figurino incompatível com a vida de quem anda de metrô, trabalha no centro da cidade ou vai a um cineminha, de repente vira mania, esgota nos estoques das marcas, que muitas vezes nem estavam preparadas para tanta procura.


Manish Arora apostou em casaquinhos curtos, bordados volumosos e saias rodadas - Foto: Pixel Formula

Aprendemos a evitar o radicalismo, dizer que aquela gola de palhaço jamais será usada por ninguém. Vai que uma personagem de novela faz uma cena incrível com a tal gola? Pronto, lá se foi nossa opinião radical.

Vamos começando logo pelo mais complicado, o indiano Manish Arora. Quem se imaginaria saindo de casa com montes de flores salpicadas sobre casaquinhos curtos, bordados volumosos estilo jardim, com folhas verdes em saias rodadas, lembrando os anos 1950? A esta altura, ter um vestido seco, com rostos estampados e rebordados, começa a ser viável, não é? Pois foi o que o Manish, um dos grandes dominadores das cores e dos adornos artesanais, propôs, na varanda da Cidade da Moda e do Design, local que substitui o elegante subsolo do museu do Louvre como point da moda.

Um paradoxo entre o real e o surreal, a experiência com técnicas e materiais, estampas de máquinas de jogos em tecidos suntuosos. Se as roupas eram absurdas, as maquiagens não ficavam atrás, com cílios deslocados, sombras coloridas. O que teria isto de urbano? No fundo da passagem das modelos, três grafiteiros espremiam suas latas, escrevendo "life is beautiful" (a vida é linda) na parede branca. E então: isto é arte, mas é modernamente urbano.

As roupas são fantasias, mas surrealmente reais, nos veludos cortados como tijolinhos, nas flores e nos rostos decorativos. Algo mais fácil: quem sabe Balmain, tão dedicada a jovens roqueiras. O que é isto? Quem chega tarde não pega papel com explicações, não entrevista estilista nem pergunta nada para assessorias. Como definir estes vestidos e casacos que lembram treliças de jardim, com flores no centro, imersas em pesados bordados de pérolas e fios brancos? A forma simples pode ter origem militar. Os casaquinhos lembram roupas de toureiro, há uma certa nobreza na erupção de relevos quadriculados, devorês, recortados.


Rick Owens, verdadeiro show de texturas e tecidos - Foto: Pixel Formula

Um alívio, reconhece-se algo: estes tops se completam com calças de couro estreitas pretas, o hit da semana. Toureiro, jardim ou militar, decididamente a ideia no vestido tomara-que-caia funcionou mal. Que dia! Vamos ver o Rick Owens, em Bercy. Fundo de chamas para um vestido longo cinzento, com casaco no mesmo comprimento, um tom abaixo. Dois vestidos longos cinzentos com casaco no mesmo comprimento. Três vestidos longos cinzentos, com casaco no mesmo comprimento. Uai, um desfile de um modelo só? Mais ou menos, porque é um verdadeiro show de texturas e tecidos.

Lãs finas, grossas, felpudas, macias, sedas, couros, tem de tudo em duas peças básicas, daquelas que vestem bem todas as mulheres, desde que decidam enfrentar as ruas com tantos comprimentos arrastando. O que é bonito e usável fica para o fim, as jaquetas de couro com golas largas dobradas, fechos de lado. Algumas, em tons mais quentes, amarronzados. Ainda não decidi se gostei do Rick Owens.

Em compensação, tenho certeza que amei os looks da Ann Demeulemeester. A eterna alfaiataria dela, em pretos e azuis, os diversos jeitos de usar variantes de paletós sobre calças de couro preto, impecável. Digamos que amei as roupas e as combinações feitas com elas. Quanto aos looks, com cabeças cheias de penas e lâminas, luvas de couro...estavam mais para Edward Mãos de Tesoura do que para inofensivas consumidoras. A esta altura, foi um oásis de moda real dentro do deserto de chamas e grafites deste dia.

Iesa Rodrigues

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