Alta-Costura, alta tecnologia?

O digital e a tecnologia estão ligados à moda há alguns anos. Roupas inteligentes, conectadas, materiais revolucionários, tecnologias do futuro, costura sem fio, sem esquecer dos cortes a laser e impressão 3D, que estão sendo usados ​​por um número cada vez maior de marcas. Mas a inovação também é, para algumas novas marcas, o coração de sua abordagem criativa, como ilustrada a Semana da Alta-Costura, que terminou na quinta-feira passada.


Final do desfile de Iris Van Herpen - irisvanherpen.com

Pioneira da moda de alta tecnologia, Iris Van Herpen abriu a Semana da Alta-Costura. Primeira a apresentar um vestido elaborado com impressão 3D em 2010, a designer holandesa, vencedora do prêmio ANDAM em 2014, atrai uma multidão para seus desfiles com suas peças esculturais com estranhas formas orgânicas.

Em seu último desfile, a dimensão tecnológica também se estendeu para além da coleção, oferecendo ao público um final com grande impacto visual obtido graças a um laser que mergulhou a sala em um sonho digital composto de nuvens em movimento, enquanto as modelos iluminadas pareciam vagalumes cintilantes. Imagens inesquecíveis, que certamente irão enriquecer o conteúdo do site da marca e expandir seu universo.

A inovação abrange todo o processo, desde a fabricação até à apresentação, passando pela comunicação, para oferecer uma "experiência de moda" 360 ​​graus. Uma abordagem que idealmente atende à sede de experiência e storytelling dos consumidores de hoje.

Flora Miranda, de 28 anos, que aprendeu com Iris Van Herpen, entendeu isso muito bem, e organizou nos bastidores da Semana da Alta-Costura uma verdadeira performance-espetáculo com a atriz e artista multimídia Signe Pierce para apresentar sua coleção "Deep Web".

Um momento instrutivo, no qual a apresentadora, repleta de smartphones em plena "selfiemania", explicou em um pequeno palco do Grand Rex, com gráficos e e tabelas, como a máquina era capaz criar sozinha. As modelos da coleção ilustraram as diferentes etapas do processo. No final, o público ficou mais fascinado pelo espetáculo do que pelas roupas, com a impressão de estar em sintonia com o seu tempo.


A apresentação high tech e louca de Flora Miranda. - ph Dominique Muret

A designer de tecnologia, nascida em Salzburgo, onde cresceu em uma família de artistas e músicos, se concentrou primeiro na pintura e depois deixou a Áustria e se instalou na Antuérpia, onde se formou na Academia de Moda em 2014. Em 2016, ela lançou sua primeira coleção.

"Me inspiro muito na cultura da Internet, no digital, em nossa identidade digital. Minhas roupas são feitas com mais frequência à mão, em minha oficina, e a tecnologia intervém apenas em algumas partes. É mais a estética da tecnologia que me atrai", explicou Flora Miranda ao final de seu desfile. "Eu vendo vestidos, mas também as histórias que construo em torno deles. Nós estamos crescendo! Há muitas empresas, não necessariamente na moda, interessadas no meu trabalho e em minhas histórias", diz a designer, que encontrou um nicho entre moda e arte com uma abordagem interdisciplinar.

Gyunel Rustamova, de 37 anos, também começou como pintora antes de mudar para a moda. Nascida em Baku, no Azerbaijão, ela estudou no London College of Fashion e na Central Saint Martins. Ela registrou sua marca de alta-costura, Gyunel, em 2005, mas começou a apresentar desfiles apenas em 2013. Hoje, ela tem cerca de cinquenta clientes privados.

"Na escola, aprendi pintura de seda com os melhores especialistas. Mas no final, é algo muito limitado. Eu sempre pinto as minhas estampas à óleo ou aquarela, mas depois eu uso impressão digital para reproduzi-las em minhas roupas", disse ela de uma sala do hotel Ritz, onde apresentou seu coleção durante a Semana da Alta-Costura.


Modelo de Gyunel, mostrando a tecnologia - DR

"Eu também uso corte a laser e impressão 3D. A tecnologia está em toda parte hoje. Isso aumenta os limites da criação e nos dá mais oportunidades, especialmente para pequenas start-ups", observa.

A jovem designer armênia Armine Ohanyan, que também se apresentou durante a Semana da Alta-Costura, segue a mesma veia tecnológica. Impressão 3D, corte a laser, materiais atípicos como silicone fazem parte de suas técnicas criativas. Da mesma forma, ela ocasionalmente embarcou em apresentações artísticas multifacetadas para apresentar seu trabalho.

A mesma história para Yuima Nakazato, de 33 anos, adepto da costura digital sem fio e ou agulha, que encerrou a Semana da Alta-Costura, onde apresenta suas coleções desde julho de 2016. "Para mim, a tecnologia é apenas uma ferramenta, mas continua sendo fundamental porque abre novas possibilidades", diz o designer japonês, que se apresenta com um jaleco branco em meio ao público para explicar sua abordagem.

As grandes máquinas presentes nas passarelas do ano passado, um scanner 3D e um cortador a laser que permitiam tirar as medidas do cliente e cortar diferentes pedaços de tecido para montar, também desapareceram. O estilista, que estudou na Academia de Antuérpia e desenhava figurinos para teatro e cinema antes de fundar sua própria marca em 2015, optou, desta vez, por uma apresentação mais intimista, com mais roupas usáveis, mas sempre detentoras de uma forte autenticidade.


A nova geração de artesãos de Yuima Nakazato. - ph Dominique Mure

Ele construiu uma história em torno de oito personagens de diferentes idades e origens, elaborando para cada um deles, roupas que expressam sua história, memória e personalidade. Para isso, ele montou em uma única peça de roupa - graças à técnica sem fio que ele desenvolveu - diferentes pedaços de tecidos, com um significado especial para cada personagem.

A mulher idosa com o vestido mostrando as pinturas de seu marido, o fotógrafa apaixonada pela Rota da Seda, um especialista em tintura índigo, o vestido da noiva concebido com a lingerie de sua avó, o figurino de um dançarino combinando as diferentes fases da sua carreira, a camisa combinando o guarda-roupa de um filho e um pai apaixonados por rock, um menino de 9 anos que sonha em se tornar astronauta, e uma menina de 4 anos que reúne todos os seus bichos de pelúcia em um só vestido.

Por fim, a tecnologia sumiu para dar espaço à uma customização de alta-costura e um trabalho importante feito à mão. Grande contador de histórias, Yuima Nakazato seduziu com uma instalação simples, mas eficaz, brincando com a poesia de um vídeo e belas fotos, bem como a instalação de roupas colocando lado a lado a peça inicial e a criada a partir das memórias de seus clientes, enquanto um novo artesão confeccionava um vestido diante de nossos olhos introduzindo nos micro-orifícios os minúsculos clipes que substituem o fio.

"A tecnologia nunca irá substituir a mão. Um robô não pode reproduzir gestos tão finos e meticulosos. Embora a inovação faça parte de nosso cotidiano, ela nunca irá substituir a experiência dos ateliês", comentou Pascal Morand, Presidente Executivo da Fédération de la Haute Couture et de la Mode, que assistiu à demonstração.

Traduzido por Novello Dariella

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