A influência punk que conquistou a moda


Em alta nas passarelas, na moda democrática das ruas europeias e nas coleções de inverno 2013 brasileiras, a tendência punk é uma forte candidata ao topo do ranking de grandes apostas invernais.

Marcada pelo uso de tachas, spikes, transfers, tons escuros e solados tratorados, a referência punk se adaptou para a passarela e foi parar no conceito de renomados estilistas, como Vivienne Westwood e Jean-Paul Gaultier. Para explicar as origens dessa tendência e os seus principais motivos, o jornalista Daniel Rodrigues, autor do livro “Anarquia na passarela: a influência do movimento punk nas coleções de moda”, falou ao jornal Exclusivo.

Jornal Exclusivo - Quais as grandesdatas e acontecimentos que ajudaram a modular esse estilo?

Daniel Rodrigues - O movimento punk em si tem alguns momentos importantes, mas que não são diretamente relacionados com a questão da moda. Vários períodos, sem umadata precisa, foramfundamentais para isso, pois corporificaram um comportamento, um acontecimento social.

Exemplos são a butique Sex, aberta em Londres, na Inglaterra, em meados de 1975, onde circulavam os punks e interessados nessa estética, ou as reuniões no CBGB e Max Kansas City, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, do final dos anos 60 e início dos anos 70, que também presenciava a circulação de tipos influenciados pela contracultura e por essa ideia de confrontamento do status quo. Mas talvez o mais importante deles sejaum show que a banda Sex Pistols fez num barco sobre o rio Tâmisa, na Inglaterra. Esse evento marcou a chamada Primavera dos Punks em1977. O show foi interrompido pela polícia, gerou polêmica e deu visibilidade mundial para a cena.

Exclusivo – E na moda, o que podemos destacar?

Rodrigues – Um momento é especialmente marcante para isso, que é a coleção Pirata, da estilista Vivianne Westwood, de 1981. Foi a primeira coleção de moda a introduzir elementos visuais do punk na moda comercial. Depois disso, a partir dos anos 80, vários estilistas passaram a usar esses elementos em suas criações, comoJean-PaulGaultier, Rei Kawakubo, Ann Demeulemeester, John Galliano, entre outros.

Exclusivo – Quais os grandes embaixadores do estilo?

Rodrigues – Os grandes artistas do rock trouxeram algum aspecto estético que influencia grupos. Elvis Presley, Jimi Hendrix, JimMorrison e David Bowie, por exemplo, são ícones pop, e a questão estética está diretamente ligada a isso. No punk, no entanto, alguns artistas são chave para aquilo que veio influenciar amoda de jovens e, posteriormente, estilistas. Destaco o cantor Sid Vicious, talvez o melhor exemplo do punk“puro”, com roupas rasgadas, cabelo embaraçado, jeans rasgados, jaquetas de couro, acessórios diversos (piercings, pulseiras grosseiras, correntes, alfinetes).

O músico Richard Hell é outro ícone da moda punk, porém da cena nova iorquina, e Nancy Spungen, que embora não pertencesse a nenhuma banda, a namorada de Sid Vicious é a representação da mulher punk. Muito couro, rasgos, cabelos embaraçados, elementos do vestuário masculino, como gravata e coturno, mas ao mesmo tempo, tem um charme juvenil e contestador.

E, por último, Ramones. O quarteto era a cara dos jovens urbanos da contracultura novaiorquina. Camisetas, jaquetas de couro, jeans rasgado, tênis All Star, cabelo tipomullet, além da expressão cética e dona de si. Eles influenciaram gerações.

Exclusivo – Especificamente nos calçados, comoa tendência se desenvolve?

Rodrigues – O punk trouxe fortemente duas contribuições para os calçados,pois se tratam de dois modelos bastante populares e difundidos. Um deles é o All Star, que era, na verdade, um tênis barato que os jovens menos favorecidos podiam comprar. A galera punk deNova Iorque, principalmente, usava direto, basta ver o pessoal do Ramones ou Television.

O tipo All Star, além de confortável, virou um dos maiores ícones quando se trata de tênis de nosso tempo e ganhou status de cult.Outra contribuição bastante importante são as botas tipo coturno. Antes somente destinadas a jovens homens em fase de serviço militar, esse tipo de calçado se tornou, através das adaptações e recriações de estilistas que souberam ler a estética punk, unissex.

Além disso, ganhou novas formas que reduziram seu aspecto grosseiro típico do militar e lhe trouxeram suavizações. Porém, um coturno é sempre um coturno, comsuas amarrações até o cabedal, cadarço grosso, couro preto ou escuro e base robusta. Características que, mesmo suavizadas, denotam que ali tem um toque do punk.

Exclusivo – Os mais antigos continuam a afirmar que o rock é “preto”, porém, uma onda mais democrática em relação às cores tem aparecido. Como você vê essa mudança?

Rodrigues – O rock tem muito do preto sim, por causa da contestação, da rebeldia, da oposição ao sistema. O punk, por mais que tenha reforçado o preto em calçados, roupas e acessórios, uma vez que expressa os sentimentos que caracterizamo ceticismo do punk - como a escuridão, o nada, o extremo -, também abriu portas para que houvesse uma profusão de cores no visual e na estética. Por meio da exacerbação dos tons, do excesso, o punk trouxe tonalidades mais berrantes para esmaltes, tingimentos de cabelos, estamparias e outros. Claro, depois desses excessos, como sempre acontece, há uma depuração, que faz comque os elementos, neste caso, as cores, passem a ser usadas conforme a tendência, a época, o sentimento social vigente.

Exclusivo - No futuro, como esse estilo vai se moldar. Há tendência para que se firme ou se reformule?

Rodrigues – A tendência é se reformular, como acontece com todas as tendências. O estilo punk é muito forte em atitude, o que se reflete em seus elementos, e por isso acredito que continue se mantendo de forma integrada a outros estilos, comoacontece na moda atual. Não estranharei, no entanto, se daqui a pouco surgir uma nova onda de moda punk em que o estilo fique mais evidente. Isso considerando o momento social que vivemos, em que se exploram muitos remakes e pouco se cria.

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