Visão poética do orfismo na Fendi Couture

Precisamente quando nos sentíamos a afogar numa onda de bloggers aduladores, técnicas hiper indulgente, espetáculos exagerados e homenagens conservadoras ao ADN das marcas, eis que Karl Lagerfeld e Silvia Fendi nos fazem finalmente sonhar.


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Fendi - outono-inverno 2018 - Alta Costura - Paris - © PixelFormula

E conseguiram-no precisamente estabelecendo novas fronteiras e reinventando a roda com a Fendi, com o objetivo de criar um novo paradigma de moda na marca de peles mais famosa do mundo. E injetando uma necessária dose de poesia na alta costura.

"Pode parecer inacreditável, mas 80% destas roupas nem sequer foram feitas em pele", disse Karl Lagerfeld no backstage do Palais Brongniart, antiga bolsa de valores de França.

A coleção, inspirada no movimento de arte do cubismo órfico, com a sua obsessão por padrões geométricos e abstração brilhante, tinha uma maravilhosa inclinação artística, evidente nos notáveis motivos circulares que cobriam muitos casacos deslumbrantes.

"Na verdade, é feito em pele de cordeiro", corrigiu amavelmente Silvia Fendi um editor inquisitivo no backstage, apontando para um casaco cor de mel com os famosos círculos múltiplos iniciados pelo pintor checo František Kupka, que parecia feito em vison, mas era na verdade feito de pele de cordeiro.

Um notável casaco multicolorido que lembrava as pinturas verticais da arquitetura abstrata de Robert Delaunay parecia certamente ter sido feito com pele de cordeiro, mas era na verdade organza; um casaco de ombros largos de astracã preto, verdadeiramente opulento e muito elegante, na verdade era feito em veludo. Enquanto um estupendo bolero abstrato com uma saia em envelope com franjas, que parecia saído de uma pintura de Sonia Delaunay, era misteriosamente parecido com couro, mas era feito em organza.

Apropriadamente, a coleção foi batizada de Fendi Couture, o que a distancia do seu anterior título, mais restritivo, Fendi Fourrure.

Todas as modelos usaram sapatos Memphis de corte cubista, com tacões compostos de perspex, ácer e chifre.

Acima da técnica, destacava-se o puro refinamento da visão, as suas cores rarefeitas e a sua delicadeza ardente. Uma lufada de ar fresco após uma temporada que oscilou entre o tecnicamente audacioso e o cansado e estereotipado.


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Fendi - outono-inverno 2018 - Alta Costura - Paris - © PixelFormula

O termo orfismo foi inventado pelo grande poeta francês Guillaume Apollinaire, que, no entanto, não teria ficado impressionado pelas qualidades literárias do programa do espetáculo, que inventou o questionável conceito de “cascatas de cordeiro da Mongólia”.

Dito isto, o espetáculo foi também uma brilhante estreia em Paris do mais recente CEO da Fendi, Serge Brunschwig, que irradiava um contentamento positivo. Ainda que os seus dois antecessores, Michael Burke e Pietro Beccari, também estivessem no backstage para desfrutar de um pouco de glória refletida.

"Absolutamente sublime", opinou o presidente da LVMH e proprietário máximo da Fendi, Bernard Arnault, abraçando Lagerfeld.

Questionado sobre um recente artigo de opinião no New York Times sobre o facto de a LVMH e as rivais Kering e Richemont se estarem a desvincular de marcas menores dos seus portfólios, a fim de se prepararem para novas grandes aquisições, Arnault brincou: “Bah! Não vendemos muito. Escute, grandes marcas são como grandes pinturas, o mais inteligente é não as largar!”

"Assim como os seus designers?", sugeriu um editor.

"Exatamente, assim como grandes designers", disse Arnault rindo.

Traduzido por Estela Ataíde

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