Kris Van Assche fala sobre duas décadas passadas em Paris

Hoje em dia, os designers são considerados extremamente afortunados por ficarem à frente de uma marca durante uma década. Na semana passada, Kris Van Assche completou o seu 11º ano numa das marcas mais famosas da indústria, a Dior Homme. E o fez em grande estilo, com uma mistura de alfaiataria e estilo street sport apresentada no Grand Palais em frente a nomes como Karl Lagerfeld e Robert Pattinson.


Kris Van Assche Dior Homme - Dior Homme

Bella Hadid marcou presença com um terno de calças Kris e um soutien ousado, e Big Sean vestiu um casaco de basebol decorado com alfinetes – ambos com sapatos iguais, em couro. Já Josh Hartnett, Jhené Aiko e Future deixaram os paparazzi em alvoroço.

Van Assche tem sido um timoneiro sábio à frente do design da Dior Homme. No ano passado, a divisão acumulou um aumento de dois dígitos nas vendas anuais de cerca de 350 milhões de euros. Na altura em que Van Assche foi nomeado diretor artístico, em abril de 2007, substituindo a lenda do design Hedi Slimane, as vendas anuais da Dior Homme mal chegavam aos 100 milhões de euros. Van Assche também começou a vestir os nomeados e vencedores dos prêmios Gammy, Oscars e César, e este desfile mais recente destacou as suas habilidades de alfaiataria, apresentando cinco famosos modelos masculinos em versões do lendário Bar Jacket do Monsieur Dior. Além disso, inventou uma categoria totalmente nova de guarda-roupa – a Black Carpet. E entrou em vários domínios, de bicicletas BMX a skates, coisas que se calhar ninguém associa a Monsieur Dior.

Van Assche chegou a Paris há duas décadas, em novembro de 1998, quando foi contratado por Slimane, que à data desenhava menswear na Yves Saint Laurent. Quando Hedi transitou para a Dior Homme, Kris o acompanhou.
 
Posteriormente, depois de Slimane sair de Paris para um exílio fotográfico em Berlim, Van Assche, que, entretanto, havia lançado a sua própria marca, foi escolhido para suceder ao seu antigo chefe como designer de menswear na Dior.



Van Assche é, acima de tudo, resiliente. É, desde a primeira temporada em que substituiu Slimane, o primeiro designer de menswear moderno a atingir o estatuto de estrela de rock.
 
“Hoje em dia as pessoas estão habituadas a mudanças constantes nas casas de moda. Há cinco mudanças em cada temporada. Mas, naquele tempo isso não acontecia. Tratava-se mais de reavivar as marcas. Assumir uma marca que estava no seu auge era muito raro. E as pessoas me fizeram passar por momentos muito difíceis. Hoje ninguém percebe isso”, disse Van Assche enquanto bebia um café no seu estúdio na rue de Marignan.
 
“Era um desafio impossível – ninguém queria que eu copiasse Hedi, mas ninguém queria realmente mudar. Não havia maneira de vencer”, disse rindo o designer, de 41 anos.

Mas, gradualmente, as críticas melhoraram, à medida que o negócio crescia, E, na altura do seu quinto desfile, quando conseguiu “dar um toque belga ao atelier, transformando completamente a alfaiataria”, Van Assche conseguiu o verdadeiro impulso. O resto, como se diz, é história.
 
Nada no seu contexto sugeria que Van Assche viria a ser um herói do design em Paris. O estilista cresceu na cidade belga de Londerzeel, filho único de um pai que trabalhava na indústria automóvel e uma mãe que era secretária.
 
“Quando eu tinha 10 anos, decidi que queria mesmo me tornar designer de moda, depois de descobrir a moda francesa extrema de nomes como Mugler ou Gaultier. Depois descobri Antuérpia – literalmente a apenas uma viagem de meia hora de carro, enquanto Paris, quando se tem 12 anos, parece tão longe como ir a Marte. Então, desde os 12 anos eu ambicionava ir estudar para lá, ainda que os meus pais esperassem que eu percebesse o erro das minhas escolhas e, ao fim de dois anos, decidisse me tornar bancário!”, diz rindo.
 
“A escola foi super difícil. No início começam 200 alunos, mas no final apenas sete podem se formar. Mas, se for um desses sete, acredita que consegue conquistar o mundo!”
 
Desde o início, a moda de Van Assche tem sido um encontro produtivo entre França e Bélgica.
 
“Eu tinha 22 anos, achava que Antuérpia era o centro do mundo. Tinha comigo a herança de Martin Margiela – escura, áspera, intensa. E depois, na Saint Laurent a minha primeira reunião foi com um fabricante de chapéus! Esse encontro entre a Bélgica áspera e a Paris extremamente luxuosa ainda está na minha memória”, nota Van Assche. 


Dior Homme inverno 18-19 - Photo: Patrice Stable

Há três anos, o trabalho de Van Assche na Dior acelerou repentinamente, quando este suspendeu a sua marca própria. Uma decisão que coincidiu com a nomeação de Serge Brunschwig como CEO da Dior Homme.
 
“Desde que o Serge é presidente, somos muito mais ambiciosos, abrindo muitas lojas novas. Agora sou a prioridade de alguém. Antes éramos apenas a divisão masculina de uma grande casa de alta costura”, diz o designer.
 
Um acontecimento chave foi o lançamento da Black Carpet, um conceito que Van Assche inventou e que é o encontro entre tapete vermelho e roupa de palco: uma coleção-cápsula de 10 looks em cada pré-coleção.
 
“Alguns atores queriam algo mais. Quando uma estrela ligou e pediu um casaco preto de lantejoulas, eu não tinha nenhum. E pensei: isso é muito fácil. Mas, como realmente o admiro, percebi que tinha que tinha que extrair algo interessante dali. Agora estou muito orgulhoso da Black Carpet”, explica Van Assche, que mora nas proximidades num apartamento estilo Haussmann com um terraço de rosas – que mostra em publicações no Instagram.
 
O designer também acumulou um grupo seguidores do universo da música, quase sem esforço. “Há qualquer coisa muito fácil em olhar para o número de seguidores no Instagram e pô-los numa campanha. Em vez disso, o que aconteceu foi que o A$AP Rocky veio aos meus desfiles e eu recebi muito feedback. Ele é realmente um geek da moda e conhece Antuérpia, designers japoneses e coleções de há 20 anos!”, revela.
 
A Dior Homme é conhecida pelas suas campanhas publicitárias duplas: metade fotografadas por Karl Lagerfeld, metade pelo amigo de Karl, Willy Vanderperre. Este último com imagens que cruzam gerações, protagonizadas por Larry Clark, Boy George, Dave Gahan ou os Pet Shop Boys. “Eles representam uma liberdade de pensamento, de ação… As pessoas que me tornaram naquilo que sou hoje têm um importante papel”, diz o multifacetado Van Assche.
 
Entre os surpreendentes sucessos do designer estão os seus skates Dior e a bicicleta BMX Dior: “Eu vivo as minhas fantasias inexploradas através da minha moda. A primeira BMX que eu tive foi o melhor presente que os meus pais me deram. Mas, a versão da Dior tinha quer ter um estilo francês high-end. No meu ponto de vista, quando se trabalha na moda, não se tem o direito de ser infeliz. Sofrimento na moda é patético!”

Traduzido por Estela Ataíde

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