Karl Lagerfeld fala sobre Chanel, Fendi e jovens criadores

Karl Lagerfeld não precisa de apresentações. Usando um terno Dior Homme e seus inseparáveis óculos de sol, o designer de origem alemã não demorou para colocar no bolso o publico presente em uma sala de conferência do Hotel Potocki, onde foi realizada a segunda edição do Vogue Paris Fashion Festival, no sábado (25), na capital francesa. Moda, indústria e personalidade, as declarações do 'Kaiser' tiveram uma dose brutal de honestidade e senso de humor, mostrando que sua opinião vale ouro.


Karl Lagerfeld responde às perguntas de Loïc Prigent - Vogue Paris Fashion Festival

Com mais de meio século de carreira, o designer admite que perdeu a conta de quantos desfiles ele já realizou. O jornalista Loïc Prigent ficou impressionado com o seu espírito eclético sem limites, acumulando, entre Fendi e Chanel, três desfiles de alta costura em 2017, isso sem mencionar as coleções de prêt-à-porter. "Não está mal", responde Karl Lagerfeld, sem dar muita importância. "Isso significa que a máquina ainda está funcionando". Ele faz isso automaticamente. Para o designer, as diferenças entre as marcas são tão evidentes como instintivas. "Não faço perguntas. Fendi é minha identidade italiana, Chanel é a francesa. Há muito mais Chanel "falsa" na concorrência do que Fendi…”.

A marca italiana está atravessando momentos de incerteza após a saída de seu CEO, Pietro Beccari, no cargo desde 2012, que substituirá Sidney Toledano como CEO da Christian Dior. Sobre a perda de seu chefe, Karl Lagerfeld responde de forma infalível, sendo ovacionado pelo público: "O chefe sou eu, eu estou no cargo há 52 anos". E elogia o trabalho de Pietro Beccari, a quem dedica uma apreciação e reconhecimento por ter conseguido triplicar os números da empresa e superar a barreira de um bilhão de euros. Sobre os rumores quanto ao possível substituto, com muitos apostando no ex-executivo da Luxottica, Nicola Brandolese, Karl Lagerfeld não confirma ou nega. "Espero ter boas notícias em breve", conclui.

"Eu tive muita sorte com Wertheimer e Bernard Arnault", ele diz quando é hora de falar sobre a Chanel. E fala sobre seu modo de trabalhar: "Sou artesanal, desenho no período da manhã, na minha casa…Há gente demais no estúdio. Na Chanel, eu só vejo e trabalho com três pessoas: Eric Pfrunder (diretor de imagem), Bruno Pavlovsky (presidente da moda) e Virginie Viard (diretora de estúdio). Bruno fez da Chanel o que ela é hoje, há alguns anos", explica. "Eu não quero ser um homem de negócios, não é meu trabalho, a empresa quebraria rapidamente”.

Ele não hesita em reconhecer que sua marca própria está em boas mãos. Propriedade de Apax Partnes e com PVH e G-III Apparel como acionistas, a empresa se destaca do resto do trabalho do designer e vem atingindo progressivamente a maturidade. "Não quero fazer imitações minhas. Minha marca não tem relação com a Chanel e a Fendi. Está quase sendo feita de forma melhor por uma equipe de estilo", ele reconhece. Embora a imagem e o posicionamento de preços não tenham nada em comum, as três empresas compartilham o sucesso de seu designer. "Nós multiplicamos o número de lojas nos últimos anos!”, exclama, admirando o trabalho bem feito. Atualmente, a marca Karl Lagerfeld possui 80 lojas no mundo todo.

Quando o jornalista Loïc Prigent pergunta a Karl Lagerfeld o que é necessário para se tornar um estagiário na Chanel, o estilista dá uma resposta que deixa a audiência, repleta de estudantes de design e fashionistas, com um gosto amargo. ”Eu não sei, você teria que perguntar à Virginie (Viard). Mas, normalmente, contratamos os filhos de pessoas que conhecemos. Há segredos industriais, temos de saber de onde eles vêm", ele admite sem hesitação.

"Há muita cadeira dançando no mundo moda atualmente, as novas gerações estão se cansando rapidamente", diz o "Kaiser" em um tom levemente pessimista sobre a nova geração de designers. No entanto, ele mostra algum entusiasmo ao falar da criação francesa atual. “Precisamos de designers franceses como Jacquemus... Eu lutei para que Marine Serre fosse escolhida para o Prêmio LVMH 2017", ele afirma ao falar do prêmio que ele próprio e seu contemporâneo Yves Saint Laurent já receberam.

Prolífico e multidisciplinar, o designer vai encerrar a temporada de moda com o desfile "Chanel Métiers d'Art" no dia 6 de dezembro, em Hamburgo. Depois de fazer suas coleções viajarem à Edimburgo, Salzburgo, Roma e o Hotel Ritz em Paris, no ano passado, Karl Lagerfeld vai retornar à sua cidade natal, para realizar o desfile na imponente "Elbphilarmonie", de Jacques Herzog e Pierre de Meuron. "É um dos edifícios mais bonitos do mundo. E o porto da cidade, seus edifícios de tijolos laranja...são magníficos. Além disso, sou de Hamburgo antes de ser alemão. Eu me mudei para Paris com a intenção de não voltar. Já não tenho nenhum relacionamento com a Alemanha", ele diz honestamente.

Se alguém via a iniciativa como uma bela maneira de encerrar o círculo, está equivocado. O designer descarta as dúvidas sobre seu futuro: "Eu ainda não sou estúpido, não haverá referência à minha infância no desfile". E a sala é invadida por aplausos de despedida e gratidão. Karl Lagerfeld, gênio e figura.
 

Traduzido por Novello Dariella

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