Esteban Cortázar: feminilidade flamenga e estratégia efêmera

Notas de flamenco ressoam nos corredores da Escola de Medicina, a poucos metros de Odéon. Trata-se do verão do designer colombiano Esteban Cortázar que, após uma breve passagem por Nova Iorque, regressa ao calendário oficial de Paris erguendo uma bandeira em tons pastel. Uma aposta na miscigenação, na sensualidade e nas suas origens latinas na coleção mais madura do criador até à data.


Esteban Cortázar, primavera-verão 2019 - Pixelformula

Mulheres como uma lufada de ar fresco, tão leves como a gaze transparente e a seda que deslizava, caindo como que por descuido e deixando à mostra as clavículas das manequins. Uma primeira série, em tons empoeirados e dourados, que deu lugar a tops estruturados e um estudo do preto, onde houve espaço para uma reivindicação esportiva com calças de ciclismo revisitadas. O branco e os tons pastel evoluiram, gradualmente, ao longo de uma coleção que mais parecia um pôr do sol pintado em aquarela. "Quando era pequeno, o meu pai dizia-me sempre que é preciso tentar encontrar a natureza, por isso trata-se de contemplar um pôr do sol, um amanhecer. Entender estas cores e tentar explorá-las. Elas estão lá, passam despercebidas e só temos que parar e observá-las", disse um animado Esteban Cortázar no backstage após o desfile.
 
A sensualidade foi o eixo da coleção, com silhuetas femininas e vestidos desenhados para realçar o corpo da mulher, destacando os acabamentos com franjas ou os cortes assimétricos que deixavam intuir cinturas ou pernas infinitas. Um trabalho de redes e malhas que quase eclipsou os acessórios requintados: de carteiras com aro ou cintos inspirados em ferradurs até às elaboradas sandálias planas de nómada. Tudo isto ao ritmo de "Malamente", o hino da sensação do momento: Rosalía, a quem chamam a Beyoncé do flamenco. E a quem Cortázar também se rendeu: "É a música que tenho ouvido durante todo o verão, que tem sido parte da inspiração desta coleção."
 
Depois de uma experiência fugaz ao desfilar em Nova Iorque durante uma temporada, o designer colombiano regressa às origens. "Estou em Paris há 10 anos e é onde a minha marca está baseada, com a minha equipe também aqui. Nova Iorque foi mais um convite", disse à FashionNetwork.com, sublinhando a sua intenção de continuar a apresenta as suas coleções na capital francesa. "Em Nova Iorque há mais comércio, as coisas desenrolam-se mais rápido e as pessoas não prestam atenção às roupas da mesma maneira. Foi uma ótima experiência, mas prefiro apresentar em Paris. Adoro a atmosfera para criar os desfiles e o modo como o público retém a informação", concluiu entre sorrisos.


Esteban Cortázar, primavera- verão 2019 - Pixelformula

É que Paris, além de ser a cidade que viu crescer a marca, é também o lugar que colocou o designer colombiano no centro das atenções da imprensa. Além de ter ficado responsável pela despedida da concept store Colette antes do seu encerramento, com uma mostra dedicada ao corner colombiano em plena rue Saint Honoré, Esteban Cortázar também ocupou um espaço dedicado no Le Bon Marché no verão passado, uma pop-up que girava em torno do realismo mágico que caracteriza a literatura latino-americana. "Tratou-se de um espaço que me permitiu criar um mundo em torno da coleção, mostrar a essência da marca e apresentá-la a novos clientes, para que descobrissem de onde vem a coleção e a essência do que sou", contou na altura à FashionNetwork.com.

De fato, estes projetos efêmeros estão no centro da estratégia da marca atualmente. "Estamos a planear várias pop-ups desse gênero com diferentes lojas em todo o mundo. Faremos uma para o Ano Novo em Cartagena (Colômbia)", na qual assegura que continuará a introduzir mais roupa masculina para, quem sabe um dia, apresentar uma linha própria dedicada ao homem de Cortázar. "Além disso, as pop-ups e cápsulas permitem-nos trabalhar mais o sportswear, com o objetivo de ir ampliando as nossas coleções", explica. A ambição é simplesmente combinar peças dedicadas às lojas efémeras, que em Cartagena será uma mistura de 'lojinha' colombiana e bar de praia, com coleções que viajam. "A ideia efémera cria o conceito de colaboração, fascina-me trabalhar com equipas diferentes, algo não estático, que viaja. Não é fácil e requer muita produção, mas adoro fazer isso.”
 
A Esteban Cortázar continua a ser uma marca independente, com o desejo de um talento emergente e o domínio de um profissional consagrado. Uma estratégia de crescimento doce acompanhada de desenhos desejáveis que realçam as raízes latinas. O horizonte apresenta-se otimista para o colombiano. Tanto quanto o amanhecer dos seus vestidos de flamenco.

Traduzido por Estela Ataíde

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