Ermenegildo Zegna: alta costura esportiva com Oscar Niemeyer

Um verdadeiro momento de moda da Ermenegildo Zegna, que deu início, na noite de sexta-feira, à semana de moda masculina de Milão com uma coleção de alta costura esportiva verdadeiramente inovadora, apresentada num cenário incrível.


Ermenegildo Zegna - Moda masculina - primavera - Photo: PixelFormula

Depois de uma temporada de desfiles Cruise na Europa, em maio e junho, amaldiçoada pela chuva, os planetas alinharam-se para o diretor criativo da Zegna, Alessandro Sartori, brindando-o com um pôr do sol digno de Tiepolo. Os modelos percorreram uma passarela metálica de 100 metros de comprimento - finalizada com a emblemática insígnia de nó triplo da Zegna Couture -, que se equilibrava no meio de um lago situado em frente à épica sede da Mondadori, obra de Oscar Niemeyer.

Com uma combinação inteligente de tecidos esportivos, detalhes de alta costura, acabamentos artísticos e estampados vanguardistas, este desfile foi uma abertura formidável para esta semana milanesa.

É difícil imaginar um melhor cenário para esta coleção para a primavera de 2019, que ampliou a definição de alfaiataria masculina a um novo paradigma. O designer Alessandro Sartori tem sido, em muitas ocasiões, influenciado pela arquitetura, e o telhado de cimento ondulante do edifício ecoou numa série de calças cargo e calças de pijama largas em seda, usadas com casacos de dupla abotoadura ou jaquetas.

“Construir um novo guarda-roupa para um homem apaixonado pela alfaiataria, mas que não quer mais um casaco clássico. Em vez disso, por que não um tecido clássico numa nova silhueta ou um terno com casaco bomber ou uma jaqueta com calças combinando?”, disse Sartori num cocktail após o desfile, antes de posar para fotografias com o ator Dev Patel.

Uma fusão de sportswear e alta costura, com calças às riscas com cortes e coletes em xadrez ou blazers de couro incrivelmente leves e completamente resistentes à água. Tudo isto numa paleta masculina de cores frescas de verão, marcada por cinzas, verde-azeitona e tons brilhantes. Acima de tudo, destacou-se o seu madras dégradé, um material no qual uma nova tecnologia permite alterar ligeiramente o estampado a cada quatro metros, pelo que não há dois casacos iguais.
 
“Basicamente, uso o nosso atelier de alta costura sob medida como um laboratório. Todos os dias olho para a minha equipe de design e digo: vamos tentar isto. Muitas calças não têm costuras externas, mas são costuradas por dentro”, explicou o designer, que também imaginou peças com uma boa dose de sentido de humor, como sacolas de compras Zegna usados como camisas, embora feitas em couro fino e não em papel.
 
O clímax chegou com aquilo a que Sartori chama "estampados souvenirs", feitos a partir de objetos que gosta de misturar no chão do seu estúdio - como estátuas musculadas, sapatos, capas de livros, tacos de golfe.

"Eu imaginei a minha própria vida através destes estampados", disse sorrindo e olhando para o majestoso edifício.
 

Ermenegildo Zegna - Moda masculina - primavera 2019 - Photo: PixelFormula

De fato, Sartori trouxe consagração ao mais importante, embora menos visitado, edifício milanês do século XX. Projetado pelo brasileiro Oscar Niemeyer para a editora Mondadori, foi inaugurado em 1975.

“Este ano marca o 50º aniversário do prêt-à-porter da Zegna, que arrancou em 1968. Um dos primeiros designers contratados pela Zegna foi Emilio Pucci, com os seus emblemáticos padrões curvilíneos. Nessa altura, Milão estava florescendo com pessoas como Ettore Sottsass, e foi exatamente nessa época que Niemeyer visitou Milão pela primeira vez. Os Mondadoris comissionaram-lhe o edifício em 1968, embora este apenas tenha sido concluído em 1975. Assim, durante esses sete anos, visitou Milão constantemente e deixou-se influenciar pela cidade. E era essa energia que eu queria explorar”, explicou.

Este é o mais icônico edifício de Niemeyer na Europa, possivelmente o arquiteto mais influente do século XX, e foi construído quando foi forçado a deixar o Brasil durante a ditadura militar que governou o país durante duas décadas até 1985. Foi um verdadeiro cidadão do mundo, tal como o jovem casting do desfile, composto por mais africanos e asiáticos do que caucasianos, e a excelente trilha sonora, que incluiu de tudo, de Alan Parsons a um remix de Paradise Garage por Massive Attack. Uma nova e bem-vinda etapa de emoção para a Zegna, uma marca cuja história comercial é marcada por uma certa frieza.

Em 1966, Niemeyer mudou-se para Paris, onde viria a construir a sede do Partido Comunista na Place du Colonel Fabien, mas o seu trabalho em Milão, com as suas curvas abstratas, é a melhor representação da sua reputação como escultor de monumentos. De fato, o edifício Mondadori remete inevitavelmente para o projeto de Niemeyer para o Palácio Presidencial de Brasília, a nova capital do Brasil, construída na década de 1950.

Um workaholic lendário, tal como Alessandro Sartori, Niemeyer morreu em 2012 aos 104 anos. Só podemos imaginar o quanto teria gostado deste desfile.

Traduzido por Estela Ataíde

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