Consumidores brasileiros impulsionam a recuperação da economia enquanto investimentos são adiados

Políticos e os economistas brasileiros vem prometendo há anos que um aumento no investimento corporativo tiraria a maior economia da América Latina da sua pior recessão. Os investidores, no entanto, não acreditam.

Segundo mostram dados da economia, os consumidores estão voltando a comprar, mas as empresas brasileiras precisam lidar com altos encargos antes de aumentar o investimento em novas máquinas ou instalações.


Consumidores fazem compras em um supermercado de São Paulo - Reuters

No entanto, alguns investidores estão apostando que as empresas voltadas para o consumidor, como varejistas, empresas de saúde e fabricantes de roupas, estão melhor posicionadas para se beneficiar do primeiro crescimento econômico do Brasil em três anos, superando a indústria pesada.

Isso desafia as expectativas de que um aumento nas despesas de capital serviria de base para a recuperação, impulsionado pelas reformas do presidente Michel Temer, bem como pelos cortes acentuados nas taxas de juros.

Após o investimento privado cair 30% desde 2013, o ministro das Finanças, Henrique Meirelles, previu que em junho ele se recuperaria mais rápido que os gastos dos consumidores.

Os economistas da Morgan Stanley também ressaltaram que haveria uma recuperação impulsionada pelos investimentos, enquanto os analistas do Itaú BBA recomendaram a compra de ações no setor de bens de capital este ano.

Marcelo Toledo, economista-chefe da Bradesco Asset Management, disse que as famílias já deram uma virada na redução da dívida, mas as empresas estão apenas a um quarto do caminho para limpar seus balanços após a crise.

A dívida líquida em 263 empresas listadas e rastreadas pela Economática diminuiu 16% em relação ao pico de 2015, mas esse número ainda é mais que o dobro do que há cinco anos.

Os líderes empresariais também podem estar estendendo os planos de gastos de capital para depois da corrida presidencial de 2018, com vários candidatos populistas nas mangas.

"Enquanto as empresas priorizarem a desalavancagem, eles não buscarão novos investimentos", disse Toledo. "Levará muito tempo até que os investimentos retornem aos níveis necessários para aumentar as taxas de crescimento de 3% ou 4%".

Um índice de rastreamento de varejistas e empresas de bens de consumo na Bolsa de São Paulo, o ICON, aumentou 23% este ano. A receita líquida média dessas empresas cresceu 6% no segundo trimestre em relação ao ano passado, o maior aumento em um ano e meio, de acordo com uma análise da Reuters.

Por outro lado, o índice industrial da bolsa, INDX, subiu apenas 12%, ficando aquém dos 18% apontados pelo índice BVSP da Bovespa.

As indústrias viram a receita líquida escorregar 2% nos três meses até junho, sendo o quinto trimestre consecutivo de queda.

Alexandre Silvério, que gerencia 1,9 bilhões de reais de ações como diretor de ações da AZ Quest Investimentos Ltda, disse que está apostando em bens de consumo e varejistas para superar outros setores nos próximos trimestres.

"Esses são os grandes vencedores", disse Silvério.

Com a demanda recuperando lentamente e os níveis da dívida forçando vários setores a vender ativos, muitas empresas estão priorizando fusões e aquisições sobre novas despesas de capital para expandir.

O investimento caiu assustadoramente. Os gastos de capital nas empresas cobertas pela Fitch Ratings foram 1,1 vezes maiores que 2016, em comparação com 2,2 vezes, quatro anos antes.

Enquanto isso, o emprego e as vendas do varejo tiveram um aumento nos últimos meses, levando os economistas a aumentarem as projeções para este ano.

O PIB brasileiro deverá crescer 0,4% em 2017, de acordo com uma pesquisa de economistas, depois de encolher 8% nos dois anos anteriores.
 

Traduzido por Novello Dariella

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